As religiões aliviam o nosso sofrimento?

Uma das grandes diferenças entre judeus, cristãos e muçulmanos são a crença em quem foi o real messias e profeta. Dentre eles temos (a) Moisés, o qual estima-se que viveu por volta de 1300 a.c., e quem escreveu o Antigo Testamento, (b) Jesus, cujos ensinamentos motivou seus discípulos a escreverem o Novo Testamento e (c) Maomé, que viveu lá pelos anos 600 e escreveu o Alcorão. Super simplificadamente, os judeus usam o velho testamento, os cristãos usam o Novo e os muçulmanos usam o Alcorão.

Antes de continuar preciso dizer que vou falar deles como pessoas reais. Não tenho o objetivo de ofender qualquer religião, mas sim mostrar uma uma linha de raciocínio não mística.

Assim como Buda, os três se preocuparam essencialmente em escrever (ou ensinar) ensinamentos que diminuíssem o sofrimento das pessoas. E uma fórmula generalizada para isso é estabelecendo regras e normas sociais que evitem conflitos entre as pessoas de uma comunidade. Imagina a vingança, a raiva e a cobiça comendo solta entre os vizinhos de uma comunidade? Seria o fim dela. Para uma comunidade grande e classista sobreviver, é preciso estabelecer e impor normas, fiscalizá-las e punir os infratores.

Nada melhor do que representantes do divino para fazer isso. O divino não pode ser consultado diretamente, então a autoridade deles não pode ser contestada. Mas não é qualquer um que pode ser considerado um real representante, ele precisa ser amplamente reconhecido pela sua comunidade, respeitado e sagaz. Verdadeiros psicólogos sociais, eles conseguiram todo esse respeito. Eles perceberam quais eram os elementos gerais que causavam conflito e sofrimento na época em que viveram, sabendo ou não de suas motivações. Nisso, estipularam fundamentos que certamente fez muito sentido na época (e vários ainda fazem sentido hoje).

Vou dar alguns exemplos.

Eles garantem vida após a morte.

Por que? Porque temos medo da morte. A consciência que temos de nós mesmos traz atrelada a consciência de finitude. E se somos finitos, não controlamos totalmente nossas vidas. E se não controlamos totalmente nossas vidas, somos infelizes. Então pensar em vida após a morte alivia o sofrimento antecipado de muita gente. Isso era verdade antes e continua sendo agora.

Eles garantem punição aos que nos fizeram mal.

Por que? Somos intolerantes à injustiças. Mesmo crianças pequenas não aceitam situações onde elas são desfavorecidas. Então pensar que alguém que nos fez mal ou foi injusto conosco poderá ser punido de forma mágica é, de longe, aliviante. Além de que garante uma pacificidade entre as pessoas do tipo “não vou me vingar, porque ele vai pagar quando chegar a hora dele”.

Eles se preocupam com conflitos causados por adultério.

Afinal, não somos instintivamente monogâmicos. É natural sentir atração por outras pessoas para além do marido ou esposa em alguma fase da vida. Porém, em sociedades classistas e patriarcais, isso certamente causava (e ainda causa) muito conflito entre as pessoas.

Mas…

…todos esses fundamentos foram elaborados em um contexto específico, em um dado momento histórico. Alguns servem para os dias de hoje. “Não matarás” é o exemplo clássico. Certamente é um fundamento que evita sofrimento e conflito antes e hoje. Por outro lado, outros fundamentos refletem como a sociedade funcionava na época. Por exemplo, no Antigo Testamento diz:

Não cobiçaras nem mesmo a mulher do próximo.

O que essa frase significa em sua profundeza? Que só o homem tem a capacidade de desejar outra pessoa que não a sua própria parceira. Mais além, enrijece o papel social da mulher como eterna coadjuvante na religião judaica. Mas será que era esse o real recado de Moisés? Ou ele simplesmente revelou uma norma útil e condizente com o contexto da época?

Nessa história das normas não serem fluidas e adaptadas ao contexto, o sofrimento da humanidade ganha outras formas. Nesse exemplo, sofrem as mulheres judias que querem ter papeis principais mas que não podem, porque os fundamentos são imutáveis e devem ser rigorosamente respeitados.

Um possível erro?

Nisso, ao meu ver, os profetas erraram profundamente. Se de fato eles pretenderam aliviar o sofrimento dos seus grupos para além de massagear o próprio ego com o título de messias ou profeta, eles não perceberam dois fundamentos básicos do ser humano. O primeiro é que o conflito e o sofrimento são inerentes do ser humano, assim como também são inerentes momentos de harmonia e tranquilidade. Isto é, o que é usado para aliviar a dor pode, por outro lado, provocar outras dores e conflitos, dependendo do contexto.

Esse é o segundo ponto, não menos importante: a importância do contexto. O sofrimento e o conflito dependem de um contexto. E qualquer norma criada para aliviar ou amenizar eles precisa, necessariamente, respeitar a fluidez das novas percepções: de onde, como e por que (espaço, tempo e história) os grupos estão estruturados. Caso contrário, os próprios fundamentos, descontextualizados, podem causar dor.

Hoje temos dores e conflitos por causa de várias dessas regras que, no seu espaço, tempo e momento histórico, serviram como amenizadoras de conflitos. Desde então quantas guerras religiosas, matanças e desrespeitos individuais estruturados aconteceram em nome desses fundamentos? É certo que cada um tem sua moralidade e somos seres julgadores do que os outros fazem, pensam e são. Mas certamente não é impondo dogmas que sofreremos menos e teremos menos conflitos, como humanidade.

Meus desejos…

Então desejo fortemente que aquele que for aceito como sendo o próximo messias ou profeta, de qualquer que seja a religião, fale sobre o que tende a ser inerente do ser humano, e que isso pode ser contextual. Fale sobre como lidar com o sofrimento de forma individual, sem afetar a vida de quem quer que seja, mas sim respeitando cada vida como a própria. Fale sobre como lidar com o conflito de forma construtiva. E dê o maior exemplo de tolerância com a divergência: não fale em si mesmo como o único messias certo para todas as pessoas. Veja que há uma grande diferença entre acreditar ser o único ou o certo e julgar quem pensa diferente.

As leis até tentam ir nessa direção para diminuir os conflitos, mas seus textos são grandes demais e prolixos. Elas estão muito longe de ter uma escrita acessível e instigante.

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