“Canibalismo” entre classes

Devaneios..

Ainda bem que a carne humana é impalatável, porque se não teríamos, literalmente, os mais fortes comendo os mais fracos. Mas o canibalismo é comum em outras espécies? Se a seleção fosse puramente individual, haveria maior frequência de canibalismo? Pelo menos inter grupos, provavelmente. Qual mecanismo nos impede de praticar o canibalismo, além do moral culturalmente transmissível? Deve ter havido alguma pressão evolutiva aí.

Mas será mesmo que não o praticamos, figurativamente? Em uma disputa visceral por distinção e status hierárquico, o canibalismo moderno são as gigantes desigualdades socioeconômicas. Os mais fortes são aqueles com mais poder, dinheiro e influência, que comem aos que tiveram menos oportunidades, ou por x razões, são mais fracos, mais pobres.

Se tivéssemos recursos ilimitados, será que a mesma disputa entre grupos aconteceria? Mas nossos nichos estão cada vez mais restritos e exauridos. Nisso, as estratégias reprodutivas tendem a se polarizar. Uma parte da população passa a se reproduzir qualitativamente, priorizando qualidade para a sua prole ao invés de quantidade. A outra continua pensando em quantidade, sem se preocupar muito com a qualidade.

Só que, para quem nasce, não houve escolha. Essa pessoa receberá, como um carma, diferentes suportes familiares. Assim como os genes que confeririam aptidão física a um indivíduo são uma questão de sorte para ele – ao nascer ele não escolhe ter tendência a desenvolver facilmente um abdômen tanquinho, quem serão seus progenitores e quais genes herdará deles.

A riqueza, entre um dos parâmetros herdado, é fator crucial nos tipos de oportunidade que essa criança terá. Não é o mais importante, porque na relação pais (mães, pra ser mais justa com o contexto ainda vigente) e filhxs há muitos fatores herdáveis (por exemplo estratégias cotidianas para enfrentamento de problemas, organização para alcançar objetivos, fatores de socialização e de rede social, esclarecimentos políticos, econômicos, históricos e geográficos).

Como é possível mover-se socioeconomicamente para aqueles que estão na base da escada nessa hierarquia social? Com tamanha desigualdade que temos no Brasil, a taxa de desemprego é enorme. Ou a taxa de desemprego é enorme e isso aumenta a desigualdade. E não é porque temos pessoas demais no nosso país e daí falta emprego. É porque há interesses pessoais, e não coletivos, na nossa educação, segurança e saúde. Desvios de verba, alienação pela mídia pública, subvalorização desses profissionais de base, universidades particulares lixo, etc.

Nossa cultura é duplamente individualista. Respeitar as individualidades é um mérito que, na minha opinião, não se deve abrir mão. Mas a segunda individualidade diz respeito ao nosso comportamento enquanto sociedade. Não temos um pensamento coletivista, que incentiva o bem estar de todos, sem que isso represente o fim da individualidade.

O importante na mentalidade coletiva é enriquecer individualmente, seja por mérito, herança ou exploração dos outros. E quando a exploração do outro entra na conta, aí temos o canibalismo figurativo. O rico explorador está tirando a oportunidade dessa pessoa se desenvolver pessoal e profissionalmente. Porque ela trabalhará demais para você enriquecer. E ainda será tratada como um descartável, porque você se sente especial e ela definitivamente não é, afinal é você quem está no alto da escada.

Infelizmente isso está longe de mudar. Quem é que se acostuma com os benefícios da alta hierarquia e acha razoável não tê-la mais? Quem é que vai querer largar o osso da comodidade, respeito e poder? Depois de conhecermos uma vida melhor, não faz sentido ‘regredir’. Além disso, temos uma lógica visceral de eu x outros. Os grupos socioeconômicos são assim também. A diferença é que o poder da autoridade recai mais fortemente em quem está na base da escada, e infelizmente estes aceitam (e precisam aceitar) ser devorados com azeite por quem se julga Deus. Se não aceitam, são devorados pela pobreza e sub-condições humana.

Torço para que a evolução cultural nos leve a uma sociedade com hierarquias funcionais, mas não autoritárias. Salários baseados nas horas de trabalho, sendo 10 horas diárias o máximo para os workaholics. Salários suficientes para todos adquirirem o que quiserem, desde que a cultura seja a do consumo consciente, verde. Respeito amplo a todas as individualidades, desde que não interfira na vida dos outros. Empregos para todos. Transparência por parte do Estado sobre o gasto dos nossos impostos e plena participação da população nas decisões políticas e econômicas. E se a sociedade clama por algum tipo de hierarquia, que prevaleça a hierarquia por mérito (conhecimento, benfeitorias à humanidade, etc) do que por status socioeconômico.

Só com muita educação de base. Rumo ao respeito ao individualismo e ao coletivismo ao mesmo tempo. Parece contraditório, mas é possível.

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