Como restabelecer a vontade do povo?

(leia o gênero como sendo um x, por um mundo inclusivo 🙂

Brasil, 2017. Mesmo com lindas manifestações nas ruas do Brasil, temos golpe, PEC 55, terceirização, reforma trabalhista, base militar compartilhada com os EUA, quase reforma da previdência, fortes repressões às manifestações, grande mídia que floreia tudo isso.. É, estamos numa ditadura camuflada de sei lá o que.

“Só vai funcionar com violência!”

“Cadê o povo se revoltando?”

“Violenta o presidente!”

e por aí seguem as frases mais comuns..

Tá, então quem imerso na luta está disposto a sair de seu conforto nada violento pra ser esse herói/heroína? E que tal essa revolução ser não violenta (Gene Sharp), que casa bem bonitinha com a comunicação não violenta (Marshal Rosenberg)?

A medida que for lendo “Da ditadura à democracia” e vendo entrevistas com Gene, vou trazendo pra cá.

 

Vamos por partes então..

Primeiramente, por que adotar táticas não violentas?

Como combater uma opressão tornando-se opressor, mesmo que por poucos dias? Só mudaríamos os nomes dos personagens, mas com os mesmos papeis. Mesmo que os rebeldes fossem opressores só por um momento, eles carregarão isso com eles, além de que as pessoas próximas de quem foi deposto também tem sentimentos, e muitas vezes de vingança.

Como na estratégia olho por olho. Se por um infortúnio ou propositalmente um dos dois jogadores começar a trapacear ou for interpretado como trapaceiro, nunca mais haverá cooperação entre eles. A longo prazo e em interações repetidas, os dois perdem (Axelrod, 1985). A generosidade entra para quebrar o ciclo de trapaças e, mesmo que haja uma perda inicial daquele que ‘ceder’, a longo prazo, ele ganha. Assim, o olho por olho generoso é a estratégia mais vantajosa, e na vida real ela pode ser traduzida como sendo a não violência em momentos críticos. Se trata, portanto, como Gene afirma, mais de pragmatismo do que um princípio filosófico.

Especifiquemos como é essa revolução, então?

Ele fala com muita propriedade que para aplicar suas estratégias é preciso conhecer profundamente os detalhes do que está acontecendo na região. E isso Sun Tzu também comenta, na Arte da Guerra: para vencer uma guerra, conhece o teu exército e as estratégias do inimigo. Isto é, antes de tudo precisamos saber qual a estratégia do governo (leia-se presidente, ministros, deputados, senadores, juízes) e quem é oposição ou aliado (independente de ser esquerda ou direita).

Mas será que TODO brasileiro precisa saber dos detalhes, ou basta algum(ns) grupo(s) respeitado(s) se aprofundar(em) e liderar(em) a revolução? Se todo mundo precisar se aprofundar, complica. Porque em geral brasileiro é gado manso. Não porque somos pacíficos, mas sim porque somos passivos demais pra ir atrás de um conhecimento profundo (talvez gastemos quase toda nossa energia resolvendo ou pensando em problemas mais elementares do dia a dia, ou o Brasil é gigante demais para acompanhar tudo).

Ok, mas supondo que bastam os líderes saberem de tudo e que o livro trata da revolta do povo contra a tirania.

Só que no Brasil temos uma tirania sistêmica, num aparente salve-se e se dê bem quem puder. Sabe o jeitinho brasileiro, aquele permeado por pequenas corrupções que não são punidas de forma socioeducativa? Não se espera dos políticos pensamento diferente. Por mais que haja um sistema de política hereditária, uma segregação física e cultural entre políticos e povo, nossas castas são bastante misturadas e o jeitinho bem disseminado. É a estratégia que mais tem funcionado, por mais capenga que seja. Como combater isso? Dever de casa parar pra refletir/pesquisar e colaborar na discussão 🙂

 

Diferença entre tática e estratégia

A estratégia se compõe de várias táticas utilizadas para alcançar um objetivo maior. A primeira é planejada para o curto e médio prazo, enquanto a última tem objetivos a longo prazo.

 

Devaneios sobre o momento atual…

Considerando A Arte da Guerra, que afirma ser de imensa importância conhecer os nossos “inimigos” para vencê-lo, fico tentando imaginar como pensa Temer e pessoas parecidas com ele, o que os motiva a um despatriotismo brasileiro e patriotismo com o estrangeiro? Daí, lendo um artigo sobre a influência das classes sociais na afiliação entre as pessoas (Côté et al., 2017), pensei que talvez role o seguinte em sua mente, considerando que as classes extremas se identificam mais e isso talvez interponha-se a barreiras nacionais quando o grupo é mais seleto ainda (pessoas que ganham ridiculamente muito dinheiro):

“Eu ganho x dinheiros, mais do que a maioria da classe alta dos EUA ($61.000). Os EUA dominam o mundo, e eu ainda ganho mais do que sua classe dominante. Então eu sou um gênio dos tempos atuais, não há ninguém mais adaptado do que eu, e minha esposa me apoia, é bonita e faz o papel que julgo ser da mulher, que é cuidar da casa e dos filhos, portanto eu sou poderoso. Deixo descendentes férteis, bonitos e bem sucedidos. Mas posso ser mais. Se eu me associar com os EUA, ganharei status entre os ricos do país mais poderoso do mundo, e serei venerado como um rei. Sou o próprio faraó, com status fora e, principalmente, dentro dos EUA”.

Esquece-se ele que se trata muito mais de oportunidade, berço de ouro, exploração do trabalho alheio, gerações de injustiças sociais e econômicas, corrupção e favorecimento próprio, do que de meritocracia. É a competição selvagem entre classes. Mas e se desvendarmos a história dele, ele poderá cair? Qual a história de Temer? Como ele passou a ter tanta influência, poder e grana? Podemos derrubá-lo por esse caminho? Ele renunciaria se expuséssemos a não meritocracia dele? Talvez o “conhecer teu inimigo” se encaixe em entender a história dele, pessoa por pessoa, e não apenas suas estratégias atuais e objetivos futuros.. ^^

Faz-se importante investigar se existe essa tendência daqueles ridiculamente ricos se comportarem como um grupo único, porque se sim, significa que nenhum político pode ter em sua linda poupança uma quantidade ridícula de dinheiros, nem muitos imóveis, nem um estilo de vida luxuoso que se distancie enormemente da população. A não ser que seja um gênio social, que embora rico, seja desapegado materialmente. Caso contrário, esse político se associará com quem? Empresas, corporações gigantes, despersonalizadas, amorais e imorais. Na busca por um lugar cada vez mais próximo do sol, ele não se sensibilizará com políticas públicas, justiça social, mas sim usará seu discernimento para o bem próprio, ao invés de público. Não haverá empatia com pessoas de outras classes. Sem empatia, sem compaixão. E sem essa dupla, não há conexão, nem humanidade, nem progressismo.

Referências

Documentário sobre a história das corporações: https://www.youtube.com/watch?v=Zx0f_8FKMrY

Axelrod, 1985. A evolução da cooperação…

Côté, S., Kraus, M. W., Carpenter, N. C., Piff, P. K., Beermann, U., & Keltner, D. (2017). Social affiliation in same-class and cross-class interactions. Journal of Experimental Psychology: General, 146(2), 269.

Livro digital, pela editora Tinta-da-China: http://www.aeinstein.org/wp-content/uploads/2016/02/Da-Ditadura-%C3%A0-Democracia_PAGfinal.pdf

Documentário com legenda em poruguês: https://www.youtube.com/watch?v=jqtTc_CMlJg

Entrevista da BBC 2015: https://www.youtube.com/watch?v=4wZESH4D1ik

 

 

 

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