Amizade entre homem e mulher heteros

*Escreverei sobre amizade entre homem e mulher heterossexuais porque me aproprio devidamente. O que significa que não estou ignorando os diferentes gêneros na discussão por preconceito, estereótipo e qualquer substantivo ou adjetivo negativo, mas sim porque quero falar de minhas vivências e impressões pessoais, com amizades que eu vivi e senti na pele e, por ser hetero-mulher, só posso transitar por essa minha bolha.

(Algumas reflexões podem ser extrapoladas para relacionamentos românticos mudando-se algumas palavras chaves, como amigo por parceiro, e amizade por relacionamento).

Sim, amizade entre mulher e homem existe sim. Sempre disse isso e continuo dizendo. Mas aos trinta e um anos me dei conta que a regra não é tão simples assim. Demorei muito pra perceber, e talvez tivesse facilitado se a sociedade conversasse mais sobre isso. Porque em geral é assim: a maioria diz que não existe e ponto final (evitando dizer os porquês pessoais), e algumas dizem que sim e seus argumentos são superficiais (sim, porque adoro fulano que é super meu amigo, e só).

Bá.. mas não se trata de quem está certx ou erradx. Se trata de construir um conhecimento sobre isso, trocar ideias concretas e sem hipocrisias, e cada um escolhe, ou melhor, vive da forma que for vivendo (já que nem tudo que fazemos parte de uma tomada de decisão consciente). Então vou puxar mais esse assunto entre amigxs (sim, tenho amigos homens) e vou reunindo aqui meus argumentos, questionamentos a partir de minhas infinitas introspecções e desses diálogos. Isto é, pra não variar, este tópico será eternamente construído e nenhuma ideia está sujeita à petrificação.

Perceba quais os teus limites

Certo, então dá pra ter amigos homens, mas com algumas importantes considerações. Há limites e, independente de sua aparência (embora ache que este fator pode acentuar muitas ressalvas entre uma amizade hetero), esses limites precisam ser impostos e praticados pela própria mulher, cotidianamente e nos pequeníssimos detalhes envolvidos em uma amizade, por mais franca, linda e forever que ela seja. Que limites são esses? São os teus, mulher. Que são diferentes dos meus. Isto é, saiba até onde um toque, uma conversa, um gesto (qualquer comportamento dele) é confortável pra você.

Imponha-se

Saber teus limites é fundamental, mas de nada serve se não os impor. Caso os limites sejam ultrapassados (mesmo quando visivelmente não intencionado), não subjetive o amigo, nem refaça teus limites pra se adequar aos limites dele. Podes readequar teus limites sim e a qualquer momento, exceto após eles terem sido ultrapassados e você pensar em expandi-los para não gerar uma situação desconfortável com o cara.

Impor-se pode significar ter uma conversa séria sobre o que aconteceu, ou dizer não na hora que está acontecendo. O importante é negar aquele comportamento que te desagrada. Aprenda a separar o que te agrada daquilo que te desagrada, e dizer não àquilo que te desagrada. Como mulher e ser humano, tive muita dificuldade pra aprender a dizer o não com firmeza e quando necessário. Mas foi assim que transitei da passividade para a pacificidade, com cada vez maior respeito a mim mesma. Se tens dificuldade em dizer não, pratique e mentalize-o, até que passe a ser algo confortável de se dizer e que o digas com firmeza.

Outra forma de impor-se vai além de dizer não quando algo te desagrada. Trata-se de dizer o que queres. De externalizar tuas vontades. Claro que qualquer relacionamento saudável, quer seja de amizade ou romântico, requer um equilíbrio entre as vontades de duas pessoas. Mas lembre-se que geralmente as mulheres deixam pra lá suas vontades por raízes culturais impregnadas. Então as vezes impor-se é dizer sim, eu quero isso, isso me agrada.

Mas voltemos ao que desagrada. É importante mencionar que o tal do desagrado pode ser algo muito simples e sutil, como um abraço ou uma frase desconfortável (não que todo abraço e qualquer frase o sejam, mas você sente quando é).

E se o desconforto não é tão simples assim e se faz necessário conversar com o amigo, qual a bronca nisso? Você gerará um desconforto na amizade sim, mas de forma construtiva com o intuito de resolver um desconforto gerado por ele (mesmo que não intencionalmente). Pensa comigo: um diálogo desconfortável, quando construtivo, anula um outro desconforto. E pra se construir uma amizade cada vez mais saudável e agradável, você tem que se incluir na soma dos fatores, com pesos pelo menos iguais aos dele. Antes ser taxada de chata, exagerada e histérica (qualquer adjetivo pertencente ao vocabulário do cara), do que ser mansa e passiva diante de algo que não te fez bem. Não importando a complexidade do comportamento que te desagradou, você precisa fazer-se entender de que aquilo não é legal.

O bônus de impor-se é maior que o ônus, e se o amigo se afastar, isso provavelmente significa que ganhastes um bônus muito maior a longo prazo, mais do que aparentará inicialmente.

Não subjetive o amigo

Cuidado pra não tentar resolver uma situação que te desagradou sem minimamente praticar o não com o amigo, ou conversar com ele. Subjetivar x outrx é comum, mas complica muito a solução de uma situação real, por mais simples que ela seja. Porque uma coisa é você sentir que algo te desagradou e subjetivar-se, assumindo o que você sentiu, e outra é você atribuir julgamentos ao comportamento dele. O comportamento é dele, não podes julgar seus porquês e nem resolver o problema sozinha. Sim, você precisa assumir que houve um desconforto, por menor que seja, que faz parte da tua subjetividade, e que é muito importante deixar claro que isso te desagrada. E pra isso, os dois personagens principais têm que estar envolvidos (quando se quer manter a amizade).

Ainda, muito comumente, a mulher se convence de que aquele comportamento foi pontual e não será tolerado se acontecer de novo. Pode até ser verdade, mas não é o que geralmente acontece. Quando acontece do amigo repetir o comportamento, a mulher subjetiva-o novamente, adiando novamente a imposição dos (saudáveis) limites. Depois de outras incidências, a mulher, entre dezenas de possibilidades, passa a aceitar o tal do comportamento (ela expande seus limites, tipo na síndrome de Estocolmo), ou se afasta sem minimamente dar oportunidade pra pessoa entender quais seus limites para poder respeitá-los (afinal a revolução tecnológica não criou uma bola de cristal), ou continua se chateando e acumulando muito remorso (exercendo deliberadamente o auto engano de que um dia irá impor-se), ou se arrepende de não ter se imposto antes porque simplesmente o amigo aceitou numa boa e a amizade ficou leve como deve, ou porque o cara não aceitou e se afastou, deixando-a aliviada.

Se necessário chame uma parceirA pra ajudar na hora da fala. Não espere a segunda vez pra impor teus limites e se houverem várias ultrapassagens, vale a pena repensar sobre a amizade de vocês. Não porque as pessoas não mudam, mas porque você precisa se respeitar e se fazer respeitar sem delongas. Se vale a pena aceitar incontáveis desrespeitos, reflita se essa amizade existe por acomodação e se há amor próprio em você suficiente pra dizer não ao que não te faz bem. Tome atitudes eficazes pra resolver teus próprios problemas, mesmo que nem sempre sejam simples como falar.

Outra armadilha é ficar pensando no que você poderia ter feito ou evitado fazer. Saiba que assim você está se culpando pela ação do outro. Além da chateação, findas por diminuir tua própria auto-estima, mudando algum hábito ou se problematizando, quando na verdade o que precisa ser problematizado é o comportamento dele.

As vezes acontece do incômodo ser um detalhe fácil de ser corrigido, mas quando não negado brevemente, pode se tornar complicadíssimo.

Cada amigo, um limite

O quanto você dá de liberdade para o amigo é critério teu. Mas uma coisa é importante, cada pessoa é um mundo, com um contexto e história de vida específicos, e portanto têm diferentes formas de lidar com as situações da vida. Cada um pede uma liberdade de amizade diferente.

Vamos imaginar o seguinte caso.. Você se sente a vontade pra dar liberdade aos teus amigos (por exemplo, fica horas conversando a sós, sobre qualquer assunto). Alguns podem se interessar por você, romanticamente, ou desenvolver um ciúmes, ou ficarem confusos sobre o que sentem. Normal, acontece. Só que isso, dependendo da personalidade e maturidade do amigo, pode virar um problema.

Alguns amigos irão lidar bem com esses sentimentos e pensamentos. Outros não. E aqueles que não souberem lidar de uma forma saudável podem ficar obsessivos (comum de acontecer já que nossa cultura é baseada no apego). Obsessão é um apego exagerado a um sentimento ou a uma ideia, influenciando o comportamento do obsessor. Quando obsessivo, o amigo pode saber lidar muito bem com isso. Ou não. O primeiro passo pra lidar bem com sua própria obsessão é perceber que se está obsessivo e que isso não é saudável pra amizade, pra amiga e nem pra ele mesmo. E muitas vezes é necessário conversar sobre isso com outras pessoas, pra que elas ajudem-no a enxergar melhor a realidade e tomar medidas cabíveis pra combater a obsessão.

Mas um amigo obsessivo também pode se tornar um agressor. Digo isso porque apesar de todos os nossos lindos avanços sociais, vivemos numa sociedade beeeeem patriarcal e, como sabemos, a maioria da violência sofrida pelas mulheres (72%) é cometida por homens que têm ou tiveram algum vínculo afetivo com elas. Então você pode ser vítima de violência desse amigo querido, em situação de obsessão, seja ela de qualquer tipo (e lembre-se, ou saiba, que violência passiva alimenta violência física). E isso depende muito da personalidade dele, e não da tua.

Então, flores, cuidado. Perceba as personalidades dos teus amigos, e vá sentindo qual pode ter mais liberdade, qual DEVE ter menos. É importante você sentir de verdade quais os limites dele em uma possível situação de obsessão. Não subjetive. Afaste-se, reflita e aja. Exerça a práxis em suas amizades. E, em caso de possível obsessão, compartilhe os seus achismos com outras pessoas próximas, por questão de segurança e conforto.

Mas pode ser que um amigo tenha passado por um estado obsessivo, você tomou as devidas providências a tempo, e ele voltou à não obsessão, né? Sim, nossas relações humanas são fluidas, e como tal, precisam de muito jogo de cintura. Isto é, o teu limite deve ser diferente para cada amigo, e pode até variar ao longo do tempo com um mesmo amigo, voltando a ser como era antes. Tudo resultará da práxis dentro de cada amizade.

Ciúmes dele

Outra coisa comum e tem que se ligar pra entender do que se trata realmente, é o ciúmes. Existe sim ciúmes entre amigxs. Mas como diferenciar o ciúmes que só quer o bem daquele obsessivo? É uma linha tênue. E muito depende da personalidade dele e de sua história de vida. Preste bastante atenção e ouça aquela vozinha no ouvido que diz “opa, tem alguma coisa estranha aqui”.

Se ligue quando o ciumento passar a oprimir o que falas, sentes, pensas e/ou como você se comporta. Ou se ele te tratar mal em algum momento, ligue o sinal de alerta e limite-se. Sem subjetivar demais, pois é assim que a maior parte da violência contra mulheres acontece. Lembre-se, violência passiva gera violência física. Então sugiro que essa amizade ganhe novos limites, com menos liberdade, pois provavelmente o ciúmes saudável virou (está virando ou tem potencial para virar) tentativa de te controlar, o que pode gerar uma sensação dele de poder sobre você.

Claro que tem amigos ciumentos que não tratam mal, nem são obsessivos e são bem intencionados porque só querem o teu bem ❤

Teus ciúmes e obsessão por ele

Esse é outro ponto super importante. Tudo que disse aqui pode acontecer na ordem inversa. Você é quem está desagradando o amigo ou apaixonou-se, tornou-se obsessiva ou ciumenta.

Sobre os limites, aprenda a respeitar os limites dele. Sobre a obsessão e o ciúmes, o primeiro passo é perceber que estás nesse estado. Afaste-se para refletir o que nos teus pensamentos e atitudes não está correto. Procure saber o que é que engatilha sua obsessão e ciúmes. Procure ajuda de pessoas de referência pra você, aquelas em quem você confia e que tem um bom senso de percepção e que não irão te julgar, mas sim tentar ajudar.

Mas, claro, preciso comentar isto. Uma mulher obsessiva é potencialmente menos perigosa para a integridade do amigo do que o contrário, por toda a questão da sociedade ser baseada no macho humano. Então voltamos ao primeiro ponto, a amizade hetero entre os sexos precisa de limites estabelecidos principalmente pela mulher, já que ela é potencialmente mais vítima de violência do que o homem.

Mensagem final

Embora tenha terminado o pensamento de uma forma densa, minha intenção é de, na verdade, tornar as relações mais leves e respeitarmo-nos cada vez mais. Não intenciono deixar todas desconfiadas de seus amigos. Não, apenas que se respeitem, com conhecimento, leveza e fluidez. Exercendo uma boa práxis, mas de forma leve, espero que as relações de amizade só melhorem em qualidade. É importante reconhecer nossos limites e explicitá-los. Nossas necessidades. E também espero que esse seja um tema cada vez mais dialogado nas rodas de conversas, pra gente construir junto esse conhecimento.

Nota

Nem tudo que está escrito aqui foi vivido diretamente por mim, faz parte da extrapolação. Afinal, posso exercer minha teoria da mente com certa frequência, que finda sendo parte da minha experiência de vida 😉

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