Revolução dialógica

(em construção) Tá, aí você me diz que acreditava na revolução pacífica, mas de uns tempos pra cá vem mudando de ideia. Isso quer dizer que vais pegar em armas? Que vais abrir mão da sua rotina pra fazer um algo que nem se sabe direito o que é? Que vais sair gritando e xingando todxs que não concordarem contigo? Mas mal deixas de fazer teu caminho de formiga, repetidamente, nos tempos atuais, por razões pessoais, por que achas que num futuro sim, farás? Ou então esperamos que a revolução violenta partirá de outras pessoas que pairam no nosso imaginário, pessoas brilhantemente subversivas sem qualquer tipo de apego rotineiro e compromisso. Hunm, os jovens! Eles, que tem tanta energia, e tão pouco vínculo com a rotina familiar e de trabalho, tão poucas responsabilidades, são perfeitos! Depositemos então, sempre, o presente, o futuro e o passado nas mãos dos jovens.

Poxa, mas será mesmo que toda revolução só pode ser feita pelos jovens? Eu sou tão mais madura hoje em dia do que quando jovem. E acredito existirem jovens muito mais maduros do que eu agora, sem dúvida. Mas não entendo ser a maioria. E sendo ou não sendo, o mais importante é que uma revolução parta de todo o povo, com suas múltiplas maturidades, energias e ideias. Que seja inclusiva, não exclusivamente para os jovens críticos e radicais. Também, os adultos, o somos (e não há idade para tornar-se).

Então viria a revolução silenciosa, inclusiva. Crônica, dialógica. Mas sabe aquele silêncio que não significa letargia? É um silêncio vivo, mas que também dorme e descansa. Porque seus revolucionários sabem a importância do sono, de se alimentar bem, de beber água direitinho e de ter relações sociais positivas para permanecer na luta por muito mais tempo.

Seria um silêncio que dialoga com todxs, dentro e fora da bolha. Porque sim, o desafio é pensar em formas de sair da própria bolha e dialogar com quem pensa diferente. Dialogar com semelhantes é simples, e muitas vezes entediante, afinal, pensamos da mesma forma, só mudamos as palavras usadas pra chegar lá e alguns exemplos. Então o desafio é criar oportunidades pra conversar com o diferente, sem uma ideia fixa, engessada (afinal aquelx que pode mudar de ideia é qualquer um, inclusive você), e estar em um construir eterno das ideias, coletivamente. Sem ataques desnecessários. Sem classificação de grupos. Sem ressentimentos. Indo pro lado da construção ao invés da destruição. Tipo assim.. não adianta chegar pra conversar chamando de coxinha e de estúpido. Quem em sã consciência gosta de dialogar com alguém que te ofende?

Nada fácil, com certeza. Mas também não é a coisa mais difícil do mundo, afinal, dialogar faz parte do ser humano. E a tolerância às diferenças casada com o respeito podem vir a ser praticados, conversados e estimulados culturalmente. Difícil é pensar em violência. Ok, algumas pessoas dizem que o problema dx brasileirx é ser mansx demais, cordial. Mas é que somos mansxs no pensamento antes de mais nada. Não temos o danado do pensamento crítico, não pensamos nos porquês, não nos interessamos no saber. Sim, somos acomodados a uma mídia que emburrece e a muitas escolas que não promovem mudança social. Então pegar em armas como, se nem pensamos criticamente?  Antes, durante e depois do agir, ainda mais em situações extremas, precisamos pensar. Mas não sabemos fazer isso (e nem tenho propriedade pra delimitar essa limitação ax brasileirx).

Então, como povo manso do pensamento, se pegarmos em armas, necessariamente estaremos seguindo alguém.  E muitas vezes a quem se segue é uma autoridade. Isto é, o antes oprimido pelo sistema decide lutar pelos seus direitos seguindo umx fulanx. Então elx passa de oprimido por conservadores para oprimido por ditadores (créditos pra Sayô que compartilhou essa reflexão). O limite é muito tênue para enxergar rapidamente. Tens que olhar com muita atenção. Por mais benevolente que seja um autoritário, ele ainda é um ser humano com interesses pessoais e uma linha de raciocínio particular, e nisso podes ser obrigadx a fazer algo que vais carregar pro resto da vida como um peso que te arrasta ao chão. A frase ‘heróis não fazem parte da democracia’ cai bem aqui.

Bem, e se ao invés de seguirmos um autoritário seguíssemos um líder de grande referência? Me parece palpável. Porque líder expressa a vontade da maioria em seu discurso e suas atitudes, dialoga, leva em consideração a linha de raciocínio do povo, e não deve ser seguido, é apenas uma referência, a qual você refletiria sobre atender a seu pedido ou não. Mas quem seria esta pessoa? Lula, popular nas classes que mais sofreram antes dele como presidente? Mas Lula tem seus muitos anos já, uma família crescida. Será que tem energia? Pois eis outro problema do ‘lutar’, ela é muito dispendiosa para os idosos.

Quem objetiva o progresso do país para todxs e está contra as medidas tomadas pelo golpista Temer, deputados, senadores, procuradores e juízes deve unificar-se. Todas as idades, gênero, classe e ideologia social, política e econômica. Afinal, tem muita gente da direita contra as últimas medidas, que vai prejudicar todo mundo. Não se trata mais de esquerda versus direita. Então está mais fácil do que nunca a gente se unificar. Mas algo muito sério está faltando. Como disse um amigo argentino de pai: guardar o ego (orgulho) numa gavetinha e deixá-lo ali, longe de si.

Está faltando romper a barreira do ego e ver quem vai ser generoso primeiro. Segundo a estratégia mais competitiva e benéfica, a olho por olho generoso, na primeira interação com qualquer que seja a pessoa, você é legal. Depois repete o que ela faz (ou é legal ou não), mas releve algumas chateações, uma vez que estamos muito sujeitos à erros de interpretação e auto engano. Então que tal começarmos a conversar sem preconceitos e com menos fogo na cabeça com x vizinhx da parada de ônibus, com x caixa da padaria, com aquelx amigx que você considera coxinha ou mortadela. Unifiquemo-nos!

A ideia é estimular os diálogos entre pares (de duas em duas pessoas) em ambiente natural, em ocasiões orgânicas. Os diálogos par a par sempre são mais intensos, mesmo para pessoas tímidas. Outra possibilidade é criar espaços para discussão em comunidades marginalizadas, nas escolas públicas e particulares junto com toda comunidade escolar, incluindo xs responsáveis pelos alunxs e vizinhança. Não se trata, porém, de uma revolução pra acontecer daqui a 20 anos, ou pra colher seus frutos daqui a 20 anos. É pra já. Pensa aí, se você conversar com cinco pessoas por semana, e cada uma delas conversar com mais cinco, que conversar com mais cinco.. o efeito multiplicador é poderoso, e vamos longe! O esquema é ir se construindo, na fluidez, e chegar a um denominador comum, desde que a outra pessoa entenda a importância de conversar com outras pessoas sobre o mesmo assunto e que esta precisa seguir adiante. Essa metodologia de corrente todo mundo conhece, presentes nas religiões e Herbalife, por exemplo, e deu/dá muito certo (créditos pra Thiaguinho por ter compartilhado essa ideia).

Vale ressaltar que esta revolução não desclassifica as outras. Todas as estratégias de revolução precisam se complementar, sem briga de ego pela melhor estratégia. Que cada um doe-se à revolução como puder doar-se, fazendo o que gosta ou melhor sabe. O importante é que haja oportunidade para qualquer umx engajar-se, não importa suas limitações cotidianas, energéticas, de saúde, qual idade. E, assim, o peso da revolução é diluído e não pesa pra nenhuma pessoa específica ou grupo.

*Deixemos de ser manso, povo. Podemos fazer milagres neste país. Porque já temos algo super difícil que é nossa linda rede de emaranhado social, embora ainda seja uma bolha, e vivemos tantas situações diversas que desenvolvemos uma criatividade impressionante pra lidar com as questões diárias.

 

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