Mulheres na capoeira

Aqui irei reunindo as informações sobre o recorte do gênero na capoeira e consequente reconhecimento de sua importância para a crescente emancipação da mulher nos espaços públicos. Quem foram as mulheres que se atreveram a praticar uma arte e uma filosofia praticamente fechada ao universo masculino? O espaço público, isto é, as ruas, ainda hoje é majoritariamente dominado pelos homens, avaliemos há cerca de 100 anos atrás. E é na rua que acontecia a capoeira.

Dentre os espaços sociais conquistados pelas mulheres, estava também a rua, mas a sua presença deveria se dar de forma discreta, quase uma extensão do ambiente doméstico¹.

Essa afirmação é certa para as mulheres de melhores condições socioeconômicas, mas não se aplica às mulheres pertencentes às camadas populares, de maioria negra. Estas precisavam trabalhar e muitas vezes recorreriam às ruas para adquirir seu sustento. Não que a rua fosse um espaço fácil de se ocupar. Ao contrário, era hostil, de violência e diferentes perigos. Ainda assim essas mulheres venceram os desafios de ocupar o espaço público, em competição com os homens, através de aspectos nada discretos, como versatilidade, agilidade e entendimento político¹. E, nesse meio tempo, algumas recorreram à capoeira para a auto defesa e até provocar a ordem social.

Uma boa fonte de informação sobre mulheres capoeiras são as notícias veiculadas em jornais. No entanto, muitas crônicas policiais jornalísticas construíam personagens em cima de fatos cotidianos envolvendo mulheres. Transformavam as brigas comuns que envolviam mulheres em uma personagem de pura valentia.

Outras mulheres ganhavam notoriedade nas páginas porque agrediam a moral pública falando palavrões, quebrando garrafas, ficando bêbadas, destruindo patrimônios públicos e privados, desacatando autoridades, ameaçando a vida de cidadãos com navalha, etc. E outras eram valentonas capoeiristas mesmo.

Isto é, já que os jornais só queriam vender fofocas e fazer piada das mulheres públicas, dentre as notícias veiculadas não se pode distinguir ao certo quem era capoeira e quem não era. Então, pelos registros serem confusos, vou montando uma super lista com as possíveis mulheres capoeiristas, ou pelo menos, aquelas que se destacaram por procurar resolver seus problemas cotidianos através da violência, muitas vezes na rua, ocupando os espaços públicos.

Além das informações provenientes de jornais, outros sites minimamente confiáveis citam outras fontes de informações, como a transmissão através da oralidade entre gerações. E é lendo esses materiais que estou em um construir eterno desta lista.

A notícia mais antiga sobre uma mulher capoeirista data de 1876 em Belém, Pará: Jerônima, escrava de Caetano Antônio de Lemos (procurar informação a partir do nome dele); em 1878 no Rio de Janeiro, e nas primeiras décadas do século XX na Bahia¹.

Com certeza temos duas capoeiristas, mencionadas pelo Mestre Pastinha: Júlia Fogareira e Maria Homem (Maria 12 homens?), do início do século XX.¹

Adelaide (a presepeira): segundo Antônio Vianna, era uma presepeira com navalha em punho.¹

Francisca Albina dos Santos (Chicão): relatos sobre ela estão em torno de 1930. Era capoeirista e prostituta. Prostitutas e capoeiras, ambos pobres, disputavam o espaço público e privado. Além disso, muitos capoeiras atuavam como cafetões, e Francisca provavelmente era uma cafetina. Ela bateu em um importante capoeira da época, Pedro Porreta, por este ter adentrado em uma de suas supostas casas de prostituição sem permissão, e foi mais uma vez levada à delegacia.¹

Antônia (Cattú): 1914, Salvador, Rua do Polytheama, “é uma mulher de cabelinho na venta” que lutou contra 9 policiais e uma mulher rival, mas perdeu e foi conduzida para a delegacia. Foi uma das primeiras mulheres, portanto, a quebrar a passividade dita feminina e brigar com muitas pessoas, prática comum entre os homens.¹

Maria Isabel: foi presa por promover desordem com navalha, em 1914.¹

Zeferina: presa em 1917 por brigar com Idalina Maria do Sacramento.¹

Idalina Maria do Sacramento: usou pontapé na luta contra Zeferina, que é um elemento da capoeira. “Não se pode negar traços da capoeiragem na valente mulher”.¹

Maria Salomé: morava em Bonfim, Bahia. Era aluna de Maria 12 Homens, cantava samba e jogava capoeira. Quando chegava sua hora de entrar na roda, trançava a saia por baixo das pernas e entrava no batuque. Era valente e boa de rasteira. Citada pelo Mestre Atenilo (Altenísio dos Santos, que nascera em 16 de junho de 1918, em Oliveira, Santo Amaro, Bahia).¹

Maria dos Anjos: morava em Ponte do Vintém. Não entrava na roda, apenas observava. Como boa capoeirista, andava com uma navalha escondida no cabelo comprido.¹

Rosa Palmeirão: nascida em Ilha de Itaparica,  Bahia, provavelmente descendia de africanos sudaneses². Mulher forte, tanto fisicamente quanto psicologicamente, pois participou das lutas em prol da independência baiana, chegando a liderar dezenas de mulheres contra os portugueses.³

Maria 12 homens (Maria Homem?): de Taboão, Bahia, assídua frequentadora das rodas do Cais Dourado e da rampa do Mercado Modelo. Tem esse nome porque deu uma surra em 12 homens em uma mesma briga.³

Anna Angélica (endiabrada): Sempre se metia em confusão por falar o que pensava sobre qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. Brigou com dois guardas e escapou de ser presa. Num dia qualquer começou a brigar com Maria 12 homens por causa de um peixe e, graças a um inimigo em comum, a polícia, conciliaram-se e passaram a andar juntas. As manchetes que falam sobre ela lembram as ações dos capoeiras nas ruas de Salvador.³

Almerinda, Menininha e Chica: conhecidas como a malta de saias, moravam na Baixa dos Sapateiros. Aprontavam, provocavam os passantes no meio da rua, se dispersavam e quando a poeira baixava se juntavam. Mas um dia provocaram medo e desconforto em uma família na Lapinha, e distraidamente disseram que eram da Baixa dos Sapateiros. Foram presas e depois disso nunca mais se ouviu falar delas. A notícia sobre as três mulheres “de pá virada” saiu em 24 de abril de 1920 (Jornal Notícias, Salvador).¹ ³

Fontes

¹http://livrozilla.com/doc/1246235/capoeira–identidade-e-g%C3%AAnero—ri-ufba

²Um pouco sobre a história da escravização dos africanos: http://www.historiabrasileira.com/brasil-colonia/origem-dos-escravos-africanos/

³http://revelarmulheres.blogspot.com.br/2015_03_01_archive.html

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