A beleza no silêncio

(em construção) Existe um provérbio popular muito antigo que afirma serem duas pessoas verdadeiras amigas quando elas, em silêncio, não se constrangem. Mas elas não seriam tão profundamente amigas se não fossem as palavras compartilhadas previamente. Palavras faladas e escritas são importantes pra construirmos a nós mesmos, seja ouvindo, seja falando (sim, você também vai se construindo a medida que falas). E, em situações de enraizadas amizades, há sempre o que se conversar.

Outro provérbio diz que bons entendedores não precisam ouvir toda a sentença para entenderem os pormenores, daqueles mais profundos. Meia palavra as vezes é suficiente. As vezes não. E até acho que muito dos conflitos humanos se devem a meias palavras mal ditas e mal interpretadas, que poderiam ser resolvidos com mais palavras, mais comunicação, mais dialogicidade. Por outro lado, outros tantos de conflitos poderiam ser evitados se algumas palavras desajustadas não tivessem sido ditas. Tem de tudo e todo mundo sabe disso.

Então qual o limite tênue entre os momentos de silêncio e de palavras? A fluidez que o responda. Depende do momento, com quem falas, a quem ouves, com quem te comunicas, qual o ambiente natural, e milhões de variáveis. A fluidez é assim. O que mais acontece, entretanto, é nos engessarmos, enrijecermos nas palavras ininterruptas. Muitas vezes não se sente o ambiente e se cai na tagarelice. Quem nunca? Tudo bem, claro, podendo significar qualquer estado entre as valências positiva e negativa, como estar com a mente inquieta, ou muito enérgica, ou cheia de ego, ou sei lá mais o que (afinal, coloco-me no lugar dx outrx sim, mas dentro da minha bolha social). Ou ainda mais comumente, em momentos de silêncio pega-se o celular pra ver o zap, o face ou jogar Pokemon Go.

O meu ponto chave é que tão importante quanto as palavras, é o silêncio. Embora importante, é culturalmente negligenciado, porque constrange. Mesmo entre amigos muito próximos, o silêncio geralmente incomoda. Mas por que incomoda não ter o que falar ou ouvir? Pessoas interessantes não são aquelas que falam o tempo todo qualquer coisa, certo? Por que queremos ser assim, então? Ou são?

Talvez seja simplesmente uma dificuldade mesmo. Será que existe uma correlação entre se incomodar com o silêncio, ou não apreciá-lo, e não saber ouvir ou ter dificuldade em tecer um fio de raciocínio conjunto? Talvez seja arrogância minha fazer essa pergunta, e como aprendiz e curiosa, vou pensando melhor sobre isso durante o presente contínuo.

O fato é que permitir-me estar em silêncio com outras pessoas (e até comigo mesma) é tão preenchedor e extasiante que gostaria que todxs pudessem sentir o mesmo. E sei de muitxs amigxs que compartilham a mesma sensação. Nisso, tento entender o porquê de nossa cultura não valorizar o silêncio, e por isso faço perguntas tão preliminares (tentando justificar minha provável arrogância).

Estar em silêncio com outras pessoas, de forma fluida e orgânica, pode gerar um sentimento de grande proximidade e humildade um com x outrx, desde que não haja o tal do constrangimento. Faça alguns testes. Ao acontecer algum silêncio espotâneo, tente perceber a respiração dx outrx, o seu cheiro, sua palpitação, seus olhos em silêncio. Não há nada para ser dito, mas a amizade, o carinho e o respeito estão ali, intactos. Perceba x outrx e a si mesmx com todos os teus sentidos.

Outra dica é pausar entre uma fala e outra. É extasiador, principalmente porque significa que aquelas pessoas estão ali pra isso, sem pressa de ir embora, sem pensar longe. As vezes até estão com pressa, mas não sentem a necessidade de atropelar o fluxo dos assuntos, a fala do outro, o próprio pensamento. Significa que as pessoas estão ali, presentes, leves, conversando organicamente. Isso enriquece um bocado a conversa, o momento. Aprofunda-o. Não há a correria do dia a dia, e assim, trata-se de uma forma muito sutil de praticar a contra cultura, onde tempo não precisa ser dinheiro, e a tagarelice não constrói um mundo mais progressista.

Muito do nosso bem estar podemos viver tão mais simplesmente. Mas isso não dá lucro pra ninguém, né? Enquanto a maioria quer vender (e comprar) calmantes pra fornecer felicidade mundial, principalmente pros ricos cofrinhos de poucos, vamos disseminar a importância da leveza do silêncio? É uma prática muito humilde e sem humilhação¹. Respirando-se. Ouvindo-se entre respirações. Em busca de nada, porque já se está em harmonia. Apenas estando.

Sem tirar a importância das palavras, o silêncio harmoniza. Como em um Ying Yang, um não existe sem o outro, devendo haver um equilíbrio entre eles. Atualmente já valorizamos as palavras, e faz um bom tempo já. Carecemos agora valorizar o silêncio, tanto quanto as palavras. E o equilíbrio entre as palavras e o silêncio significa que ali existe harmonia interior.

(…)

Nota. Claro que em alguns casos o silêncio deve ser combatido, como em abusos sexuais, vivências de preconceitos raciais, de gênero, de religião, etc. Nenhuma opressão pode passar desapercebida. Além de que muita coisa que deveria ser falada mais naturalmente permanece no mais completo silêncio do tabu (Vamos falar de sexo? é um post que explica melhor essa reflexão). Por menos silêncio quando oprimidxs (e pra falar de coisas naturais como o sexo) e mais valorização do silêncio orgânico nas relações sociais saudáveis não opressoras.

Aqui um pouco de inspiração pra escrever este post.. http://blogdamacabea.blogspot.com.br/2016/11/cicloviagem-ou-arte-de-ouvir-cheirar-e.html

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