Palavras escritas

(lendo e revisando)

Problemática: as palavras não conseguem transmitir o real significado dos sentimentos e do que algo realmente é, por mais inanimado que seja aquilo que existe e se tenta explicar.

Mas é através das palavras que podemos construir conhecimento, inclusive filosófico. É através da conectividade entre as palavras minhas, das pessoas e da natureza que construímos outros pensamentos, conectamos outras ideias em nossas mentes, avançamos individualmente e, principalmente quando escrevemos, coletivamente. Outras artes também podem permitir a transmissão das ideias e, portanto, das palavras. É o caso da dança, do teatro, do cinema e da pintura, através dos movimentos corporais, expressões, diálogos, enredos, elementos. Mas nem tudo se pode expressar de maneira indireta. Algumas ideias são melhor transmitidas através da palavra escrita e da falada.

O que seria de mim sem as sábias palavras de Paulo Freire? Ele inclusive escreve sobre sua preocupação em não definir um algo de forma pragmática, quadrada e sem portas. Eles prefere tratar primeiramente sobre um algo de forma indireta, contextualizando esse algo. Mas ainda assim ele usa palavras para isso. Algo também pode ser definido de forma mais rasa sim, e aí as palavras podem perder um pouco de sua importância. Então o problema não são das palavras em si, mas sim do uso delas.

Falar do contexto seria o mais próximo de fazer as palavras serem sentidas. Talvez imaginadas e cheiradas também. A partir do contexto podemos conectar de alguma forma a nova palavra-chave, por mais simples que possa ser, com outras palavras-chaves já apropriadas por nós. Isso traz mais profundidade no pensamento próprio e nas conversas. Assim, a comunidade cresce intelectualmente, aprofunda-se.

As palavras escritas que contextualizam um algo podem certamente alcançam mais pessoas, exceto se os cidadãos não tiveram oportunidade de aprender a ler ou não foram incentivados a ler, e são zumbis da grande mídia. Nesse caso, as palavras faladas são mais importantes, que é o que ocorre no Brasil. Mas certamente a palavra escrita foi a que mais influenciou a formação do mundo como o conhecemos hoje. Como, por exemplo, as palavras religiosas. Infelizmente quem as lê não pára pra entender que o contexto da época em que foram escritas é totalmente diferente do contexto atual. É raso o pensamento que não vai além do que lê. E é perverso o pensamento que justifica atos de desrespeito aos direitos humanos de igualdade, liberdade e justiça através das palavras religiosas. O mesmo eu diria para um pesquisador. É raso o pensamento daquele que congela seus pensamentos a partir de um punhado de artigos. Mas a ciência têm avançado porque as palavras geralmente têm se aprofundado, tem acompanhado o contexto. Cosntruímos teorias, práticas e máquinas através do conhecimento acumulado através das palavras. Palavras escritas mais do que tudo. Porque as faladas, estas se vão junto com o vento. Diria até que as palavras que expressam descrições estáticas, imutáveis, sem permitir que se agreguem outras palavras-chaves conforme a evolução cultural local, são fundamentalmente irracionais (fundamentalistas).

As palavras escritas são vistas como estáticas porque podem ser lidas a qualquer momento, naquele livro específico. Mas existe até revisão pra tornar a palavra escrita relativamente fluida como é a palavra falada. Só que estas se vão junto com o vento. A fluidez da palavra escrita é construída coletivamente, a medida que as pessoas vão adquirindo níveis de consciência diferentes. Então as palavras de alguns filósófxs, sábixs e pesquisadorxs antigxs não podem ser ignoradas como total inúteis, mas tampouco congelá-las como verdades absolutas e imutáveis. Nem inútel nem imutável. A partir dessas ideias antigas outras surgiram, e assim veio vindo até a contemporaneidade, uns contribuindo mais do que outros, e assim continuará pelo tempo. Eis a evolução das palavras.

É difícil descrever um algo, por mais inanimado que ele seja, mas quando se tem a vontade de ir além, a prática torna as palavras mais fluidas e melhor encaixadas. Mas não, não dá pra determinar algo simplesmente pela minha (ou sua) descrição sobre esse algo. E isso é belo. Porque quando ouço alguém definindo algo, geralmente ela diz mais sobre si mesma do que sobre o algo. E ainda, juntando vários dizeres, as definições vão se tornando mais complexas, com palavras-chaves mais específicas e melhor encaixadas. Nossa própria mente é que deve fazer isso, certo?

Não tiro de jeito algum a importância das informações diretas, como as obtidas pelo wikipédia, e das pessoas objetivas. Pode ser um bom começo pra se aventurar em uma nova palavra-chave. Talvez o problema seja limitar-se ao wikipédia ou a uma única linha de raciocínio expresso em palavras saídas de uma boca ou escritas por uma só pessoa. Ampliemo-nos. Ao mesmo tempo o silêncio muitas vezes diz muito mais do que as palavras. Não descrever algo, limitando-o, as vezes é o melhor caminho mesmo. Mas o silêncio em si têm muitos significados semânticos. Pode ser de chateação ou tristeza a até aquele silêncio que transborda paz, sossego ou amizade. Até a tagarelice crônica tem um significado a mais que muitas vezes não se expressa em palavras. Mas tudo, incluindo qualquer sensação ou situação, pode ser transformado em palavras?

E se temos pouco tempo para nos expressar? Por exemplo, muitas pessoas que conheci não as verei nunca mais. Foram sensações e interações únicas. As sensações são sentidas, mas como é a melhor forma de comunicar-se: objetivamente, tal como o wikipédia; contextualizando até onde der, sabendo que terás a conversa interrompida ao meio; ou mantendo-se em silêncio? Obviamente depende de com quem conversas, de como foi o seu dia, do assunto, da ocasião, etc. O fato é que para que as palavras sejam amplas e não sejam rasas ou para que não tenham o efeito de tolher, temos que gastar tempo dialogando com as pessoas, organicamente. “Temos que perder tempo sim”, como disse Elis Regina. A gente veio pro mundo pra se conectar. E uma forma de nos conectarmos é usando as palavras, sejam elas faladas, escritas ou artísticas.

Vejo as palavras como sendo tão importantes quanto dormir, comer, beber água, namorar, fazer atividades físicas, trabalhar e ter lazer. Já que somos uma espécie social, que precisa viver em sociedade para sobreviver – por mais isolados que sejamos, somos beneficiados pela vida em grupo, pelo acúmulo de conhecimento e pela divisão de trabalho, por exemplo – entendo que boas relações com outras pessoas são muito prazerosas, até para pessoas diagnosticadas com síndrome de Aspergen. Vejo que muitos problemas entre as pessoas ocorre porque existe uma confusão ou um erro de interpretação do que foi dito ou feito. Nisso, muitas vezes um conjunto de palavras simples resolveriam o mal entendido. Mas muitas vezes não somos incetivados a sequer por em palavras o que sentimentos e pensamos, avalie expressá-las para outras pessoas a fim de resolver um problema. Somos pouco motivadxs a praticar o auto-entendimento e a dialogar verdadeiramente com x outrx. Se fizéssemos isso, provavelmente resolveríamos pelo menos uma parte do caos que rodeia alguma história em particular. Então sim, defendo as palavras. Mas não aquelas inúteis a ponto de desrespeitar o outro ou imutáveis, carregadas de arrogância sobre uma sabedoria plena que não existe. Meu lado otimista realmente acha que com o tempo a humanidade desenvolverá uma sensitividade natural consigo mesmo e com os outros, passando a se importar. Mas vamos com um passo de cada vez. E sim, este texto pode ser modificado a qualquer momento x)

Palavras-chaves não usadas mas muito conectadas a este texto, em minha mente: uma então fada (ela não é, ela estava fada), anarquismo com sociocracia, antropologia. Exú. O individualismo e o coletivismo.

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