Nem oprimido, nem opressor

Esta reflexão tive caminhando, indo meditar e capoeirar em um parque lindo aqui perto, na Primavera cheia de vida, num dos raros dias ensolarados. E me inspirei em duas pessoas, principalmente. O admirabilíssimo Paulo Freire e um recente amigo com o qual já criei profunda estima, Aécio.

Nem oprimido, nem opressor. Não me lembro exatamente das palavras de Aécio, mas foi algo no sentido de que precisamos ter uma postura de se impor, mas ao mesmo tempo ser humilde. Andar na rua, ocupando os espaços públicos, pegando ônibus por exemplo, são formas de se impor à insegurança. Andar com uma certa postura. E nada disso significa reagir a um assalto ou desrespeitar os outros.

Essa é exatamente a máxima de Freire: não seja um oprimido mas também não oprimas. Oprimidos precisam aprender a se impor, desde que com tolerância, respeito, coerência ao seu radical e não sendo conivente. E opressores precisam aprender a ser humildes, sem que para isso passem a ser oprimidos. Isso é muito lindo e igualmente difícil. E se pararmos pra pensar, todas as pessoas do mundo podem ser designadas em algum grupo variando essas duas categorias, oprimido e opressor.

Mas, longe de mim reduzir nosso caráter, comportamento, essência, ideais a esse tipo de classificação. Longe de mim sugerir criar estereótipos binários e congelados. Não é isso. Mas sim que, como estudiosa do comportamento humano, penso que poderíamos complementar nosso autoconhecimento, sobre como vemos o mundo, os outros e a nós mesmos também por essa perspectiva. Pode servir, sim, como uma das inúmeras possíveis formas de autoconhecimento, porque as vezes o que pensamos sobre os outros mais diz sobre nós mesmos do que propriamente sobre o outro, uma vez que todos os nossos julgamentos são subjetivos. Assim, por mais que evitemos julgar os outros de uma forma enviesada, viéses acontecem o tempo todo, mesmo inconsciente ou espotaneamente, e mesmo quando se tem a melhor das motivações. Já que julgamos o tempo todo, um bom caminho pra sermos menos enviesados pela nossa subjetividade é aprendendo a filtrar esses nossos julgamentos, e pra isso, quanto mais autoconhecimento, melhor.

E mais uma ressalva. Se alguém se comportou de um jeito diante de mim ou de você (ou de nós) não quer dizer que ela é, e muito menos que ela sempre será, daquele jeito. Vemos partes do que os outros são, não é mesmo? Mal sabemos quem somos, imagina poder julgar como são os outros. Então volto a repetir, as impressões que temos sobre os outros são subjetivas, suscetíveis a muitos erros de interpretação e interferências, influências pessoais, e elas não podem ser imutáveis, afinal, todos os dias mudamos um pouquinho desde a hora em que dormimos até quando acordamos.

Nesse sentido, o que proponho aqui serve mais pra cada um entender mais um pouco sobre como julga as pessoas e, de repente, como podemos melhorar algumas atitudes pessoais diante de alguns conflitos com os outros, servindo mais como autoconhecimento do que como julgamento. Outra coisa que dá pra fazer é julgar-se a si próprio diante de alguma situação desconfortável e de repente entender melhor os porquês de algumas sensações de frustração ou tristeza.

Bem, quando classifiquei subjetivamente, e possivelmente erroneamente, meus próximos (amigos, colegas, familiares e conhecidos), percebi o porquê gosto mais das pessoas de quem mais gosto. Perceba que os verbos utilizados fazem toda a diferença e isso promove uma variação maior, com mais possíveis combinações. Perceba também que uma coisa é o que eu acho que a outra pessoa acha de si mesma, e como eu a considero diante de x situações que presenciei (ou imaginei). E, finalmente, pense nas seguintes possibilidades como exemplos, e crie seus próprios exemplos. Tudo no feminino porque se refere a pessoas! 😉

  • Opressora que se reconhece como opressora e gosta de ser.
  • Opressora que se julga igualitária.
  • Opressora que se julga oprimida.
  • Oprimida que se julga oprimida.
  • Oprimida que se julga igualitária.
  • Oprimida que se julga opressora.
  • Oprimida que quer ser igualitária oprimindo.
  • Oprimida, sabe que é oprimida e busca se comportar como igualitária.
  • Oprimida que se comporta como oprimida, embora esteja aprendendo a se impor.
  • Oprimida que finge ser opressora.
  • Oprimida que se comporta como oprimida.
  • Se sente oprimida, embora não seja, mas quer ser igualitária e pra isso oprime.
  • Igualitária que sabe ser e valorizar ser igualitária.
  • Igualitária que se julga oprimida.
  • Igualitária, embora oprima as vezes.
  • Igualitária que se julga opressora.

Eu particularmente me identifico mais com as pessoas oprimidas e muito me inspiro nas igualitárias que sabem conscientemente que são igualitárias e valorizam isso. E você?

 

 

 

 

 

 

 

 

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