O que pensas quando caminhas?

Andando pelas ruas de Oxford, observo as pessoas, o chão, o céu, os pássaros. Construções e seus detalhes. Pessoas que estão caminhando sozinhas e suas feições. Como andam? Para onde olham? Elas se mexem muito? Elas parecem confortáveis? Estarão pensando em assuntos pessoais ou em como os outros estão olhando pra elas enquanto andam na rua?

A maioria me parece tensa. Talvez por causa do mesmo mecanismo que nos deixa tensos e nervosos quando falamos em público. O medo de ser visto e julgado. De fazer feio. Mas o medo de fazer feio geralmente nos faz fazer feio. E andar feio, tensos(as). Ou simplesmente caminham tensas porque estão tensas com seu cotidiano. Vi alguns rostos tranquilos, suaves e aparentemente de bem com a vida. E estes são bonitos de ver, porque contagiam. Qual motivo, com alguma certa garantia, poderia promover um andar sozinho suave? Pensei em um, num provável leque infindável de motivos. Ter passado por um evento de morte iminente. Mas só se ele não tiver provocado sequelas psicologicamente negativas, traumas. Porque a ideia de quase morte faria a perspectiva sobre a vida mudar. E incômodos pequenos, como estar em público ou se preocupar com com a aparência ou qualquer detalhe que não vale o estresse (sob o julgamento de si para si), passaria a não ser mais estressante.

Aí fiquei viajando nesse pensamento por um tempo, encontrando exemplos e contra exemplos de pessoas que conheço ou ouvi falar que quase morreram (eu mesma e um grande amigo). Fiquei imaginando como elas caminham, e se nunca as vi caminhando sozinhas, como caminhariam, ou que tipos de situações elas julgam ser um verdadeiro problema. Não foi um pensamento muito bem estruturado. Certamente as conexões nessa área cerebral ainda estão por ser fortalecidas.. Daí pulei pra outro pensamento, não sei bem como. Que é o que se segue.

A sua vida passa desapercebida enquanto caminhas? O que pensas enquanto caminhas? Estás como os zumbis, sem olhar, sentir e perceber nada mais do que você mesmo? Ou estás a apreciar a vida e seus detalhes? Não que seja dicotômico.. são só exemplos, na verdade. Será que as pessoas andam literalmente pensando em seus problemas? O que te preocupa diariamente? Quais são teus anseios pessoais? E se você soubesse que iria morrer amanhã, o que você passaria a pensar e a sentir, o que você priorizarias fazer e como passarias a caminhar?

Esperarias a morte numa profunda depressão, deitadx na cama, ou perceberia com todos os teus sentidos, aguçados o máximo possível, os mínimos detalhes do teu último dia? Apreciaria o barulho dos passos alheios, do passarinho, da mosca, os cheiros da natureza e das pessoas, a sensação do cabelo passando entre os dedos, a sensação do teu corpo sentado na cadeira, a possibilidade de estar lendo (ou escrevendo) isto? Falaria algo para alguém, nunca dito antes por medo ou por ego? As possibilidades são infinitas.. E se soubesse que quase morreu, ao invés de que amanhã morrerás, acreditarás mais na morte, e portanto, suas respostas a todas essas minhas perguntas mudariam?

Será que o contexto onde vivemos interfere no que pensamos enquanto caminhamos? Será que pessoas que nunca saberão o que é viver em perigo caminham menos zumbis do que pessoas que sabem que podem morrer a qualquer instante, mas é tão crônica a sensação de morte iminente que se torna banal?

Será que as pessoas dos países desenvolvidos, como aqui na Inglaterra (recém desmembrada da união européia), por terem uma relativa baixa desigualdade socioeconômica entre sua população (em relação a outros países) – e isso praticamente garante que um bebê, independente da casa que nasça, possa crescer em boas condições de moradia, nutrição, educação, saúde, segurança e lazer – caminham pelas ruas pensando em seus problemas, nervosas por estarem em público, ou simplesmente sentindo e absorvendo o mundo, ou o que?

Certamente, segundo as pesquisas, pessoas de países mais desenvolvidos como a Inglaterra são mais individualistas comparadas com cidadãos de países menos desenvolvidos (mais detalhes no post O Terceiro Mundo tem). Isso talvez lhes dê o ar de zumbis que têm.. Mesmo com boa educação, saúde, economia forte, pouca desigualdade social e segurança, a maioria votou por sair da UE para manter sua cultura, tradições e individualismo longe dos outros europeus. Eles têm a sorte de poderem se desenvolver individualmente e, com uma certa mescla cultural entre os europeus, poderiam fomentar mais as atividades sociais, como música, dança e comida. Mas não, pra eles basta seu individualismo nacional, msmo que pobre culturalmente. Então talvez os ingleses sejam zumbis, assolados pelo individualismo extremo (talvez eu possa chamar de social impairments, sem maldade). E sem um social rico, a vida certamente não tem o mesmo sabor (talvez um bom exemplo seja que países com alto grau de individualismo que têm as menores taxas de desigualdade possuem uma grande porcentagem de mortes por suicídio). E aí eles caminhariam zumbis, pensando demais no próprio umbigo autosuificiente. Interessante é que a maioria dos zumbis que vejo caminhando por aqui parecem ser bem conservadores.

Por outro lado, em países cuja desigualdade é muito grande a sensação de morte iminente existe o tempo todo, isto é, é crônica. No Brasil, por exemplo, pode-se morrer por bala perdida, por policial bandido, por um assalto banal até brutal, por infecção hospitalar, por acidente de trânsito, por atropelamento, por brigas de vizinhos, por machismo, por racismo, por homofobia, por fome (desnutrição e suas consequências), por sede, por frio, por doenças relacionadas a falta de saneamento básico, e por centenas de outros motivos. A banalidade da morte iminente nos faz ter níveis de cortisol elevado, certamente, e criar mecanismos de sobrevivência mais elaborados do que em países como a Inglaterra, como valorizar mais as redes sociais. A cultura fervilha com tamanha rede social. Mas, pela desigualdade e cultura da malandragem e do objetivo maior de acumular riquezas infinitamente, muitos dos brasileiros se tornam free-riders e não conseguimos diminui a desigualdade.

Mas voltando ao raciocínio anterior.. Pensar cronicamente na morte dificulta nosso desenvolvimento individual pleno, que poderia ocorrer se tivéssemos boas e igualitárias oportunidades. E sendo crônica, a iminência da morte é sentida (e evitada) o máximo possível todos os dias, embora não haja tempo pra pensar nela o tempo todo. Então, em muitos casos, deixariam de ser sentidas. Então talvez os brasileiros também caminhem zumbis, assolados pelo medo, pensando demais em como garantir a sobrevivência do próprio umbigo dentro de sua emaranhada rede social. Em Natal eu diria que tem dois tipos de zumbis.. o da classe baixa e da alta. Da baixa é aquele pobre coitado que não consegue prestar atenção na vida conforme sua visão periférica, porque carrega o peso enorme da pobreza nas costas e com ele inúmeros problemas pessoais e familiares. Da alta é aquele povo esnobe que também acha que é autosuficiente em tudo e só fala com os de menor classe por interesse ou pra afirmar sua alta posição na hierarquia socioeconômica.

Por outro lado, será que quando o indivíduo, independente do país, passa por uma experiência de quase morte (nem crônica, nem ausente), desde que não provoque qualquer trauma ou transtorno, passa a caminhar mais leve, prestando mais atenção na vida e valorizando tanto os detalhes dela como as pessoas que fazem parte dela? Perceber que se poderia ter morrido em um dado momento e ter a sensação que se ganhou uma nova oportunidade para viver poderia representar uma maior valorização da própria vida, e portanto, um andar menos zumbi, mais livre de estereótipos. A pessoa passaria a se comportar mais coerentemente com o seu eu, mesmo que o contexto cotidiano (iminência de morte crônica ou ausente) seja o mesmo. O mundo interior passaria a ser outro e, portanto, o mundo exterior também. As lutas seriam maiores? A compaixão aumentaria? Depende do que provocou a experiência de quase morte.. e de como a pessoa lida com o amor e o respeito, provavelmente. Talvez pessoas do bem, que estavam dormindo como zumbis, despertem para a vida com a quase morte, e caminhem mais leves e ao mesmo tempo firmes pelo mundo, sem oprimir nem oprimidas. Detalhezinho: pessoas muito sensitivas não precisariam passar por uma experiência de quase morte pra perceber o mundo em detalhes.

Vou perguntar organicamente pras outras pessoas que tiveram essa experiência e como elas descrevem suas vidas antes e depois disso. Vai que dá uma luz melhor.

Então, em um outro pulo gigante, chego na pertgunta “O que é a vida pra você?”, inspirada no meu querido amigo de luz Geomar. Pra responder essa pergunta talvez seja sensato começar a responder outras: Quais são teus medos mais profundos? Quais teus anseios? O que você faria durante uma semana se soubesse que iria morrer no oitavo dia? Quais são os teus problemas diários e eles deixariam de ser um problema se você soubesse que morreria? Talvez a sensação de morte iminente coloque em xeque tudo o que mais te importa na vida, ou simplesmente o instinto de sobrevivência tenta contornar o pensamento sobre a morte iminente?  Mais profundamente, estás dando a atenção que gostarias para o que te é fundamental?

E na minha ânsia por entender porque ricos são ricos e pobres são pobres, e não somos uma comunidade linda de respeito, paz e igualdade, lá vai eu viajar mais um pouco.. Será que os últimos desejos palpáveis dos ricos são voltados para viagens e bens materiais e dos pobres são mais voltado para as relações sociais? Ou todos são voltados para as relações sociais? Com o que nos apegamos na vida quando a morte está iminente? Caminharíamos mais suaves ou nem sairíamos da cama? Ou faríamos ambos, ou o que? Será que essas perguntas podem ser um indicativo de que somos sim uma espécie socialmente individualista?

Uma ressalva é importante.. para aqueles em situação de rua, pensar na morte iminente é algo crônico e agudo ao mesmo tempo. Crônico porque eles são um dos grupos de pessoas mais vulneráveis do mundo, e agudo porque eles passam por situações com grandes picos de estresse frequentemente. E muitas vezes a morte é um desejo para não mais sentir fome, sede, solidão e desprezo. Então essa minha reflexão restringe-se bastante. Ainda não sei a quais grupos. Preciso pensar e, quem sabe, reformular tudo.

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