Fome no interior

Pensar profundo.. não raso. Aprofunde-se! Por que João morreu? Morreu de fome. Mas como alguém pode morrer de fome? Biologicamente ele não conseguiu consumir a quantidade de calorias e nutrientes mínimos diários por um certo tempo e o seu corpo teve um colapso, começando com a falência dos rins, do coração. Ou, mais frequentemente, ele não se nutriu adequadamente, baixou o funcionamento do sistema imunológico e ficou mais propenso a infecções. E por que João não tinha comida em casa? Ah, porque ele não trabalhava.. ele ficou doente e perdeu o emprego, daí quando ficou bom não achou mais emprego. E por que ele teve dificuldade de conseguir emprego? Porque não tinha lugar precisando de gente, ué. Alguém poderia ter ajudado ele? A gente até ajudou, mas não foi suficiente. A prefeitura poderia ter ajudado diretamente? Não sei, mas acho que não.. o prefeito mal vem na cidade. E os outros funcionários da prefeitura? Não podem fazer nada sem o prefeito, né? E a prefeitura poderia ajudar indiretamente? Não sei. Tá, então vou perguntar por outro lado.. a prefeitura faz alguma coisa pra gerar mais empregos na cidade? Não sei. Certo, então a prefeitura presta contas com frequência do quanto arrecada com impostos municipais, do quanto recebe do Estado e de como e quanto gasta? Também não sei. Você sabia que é direito de qualquer pessoa ter acesso a essas contas? Não. Você tem interesse em saber? Pra que? Seria uma forma de saber o porquê da cidade não estar se desenvolvendo, iria melhorar a vida das pessoas da sua cidade. É, pode ser. Sugiro que você junte alguns amigos pra ir uma vez por mês lá na prefeitura olhar essas contas, o que acha? Difícil, mas vou ver com a galera. Certo, outra coisa, sabia que a prefeitura pode resolver o problema da seca e da fome? Sabia. Mas você sabe como, especificamente? Não ao certo. Vou listar algumas coisas, certo? Certo. Mas elas nunca vão acontecer se a população não pressionar o governo. Eu sei, mas ninguém ajuda. Não é fácil, comece pequeno, com um grupo pequeno, e vá aumentando a pressão. Certo.

Algumas possíveis ações da prefeitura: 1) se inscrever em editais nacionais pra mandar dinheiro e equipamento pra investir em projetos de cisternas e poços; 2) fazer parcerias com universidades pra ajudar o desenvolvimento sustentável da cidade; 3) incentar a agricultura familiar e a permacultura, mediando acordos justos com governo, bancos e comerciantes; 3) valorizar e promover a história da cidade, construindo um museu, reformando as casas mais antigas, colocando placas de informação histórica, contruindo mapas turísticos, fazendo e atualizando um site turístico sobre a cidade; 4) mediando acordos com as empresas de transporte dentro da cidade e entre as cidades para melhorar o sistema; 5) valorizar o artesanato com a construção de um centro de formação e venda; 6) incentivar e valorizar a culinária local, através de propagandas e ajudando os(as) cozinheiras e estabelecimentos; 7) investir nos professores de ensino fundamental, médio e superior através de cursos de formação, dando uma maior liberdade pra eles construirem a ementa disciplinar, melhorar seus salários e tornar o ambiente escolar agradável; 8) promover encontros com os moradores da cidade para expor os problemas, demandas e possíveis soluções, gerando um sentimento maior de grupo, de ajuda e de respeito; 9) oferecer educação informal sobre desenvolvimento sustentável, sobre como funciona a política, como ter uma alimentação rica e nutritiva gastando pouco, sobre a importância da prática de esportes, sobre a importância da natureza, da valorização da história da cidade e seus aspectos peculiares.

Que tal a gente fazer um mural com essas ideias e colar pela cidade? Pode ser. No cartaz colocamos um dia, hora e local para os interessados nessa luta começarem a pensar em como alcançar esses objetivos. Pode ser. Vamos fazer, então.. sem pressa, mas sem desanimar.. devagar e sempre, dando um passo de cada vez.

E outra coisa.. Quem escolhe a prefeitura? A gente. Quem é a gente? Eu e todo mundo. Isso mesmo, você. Mas adianta escolher um prefeito que não promove a melhoria da cidade? Não, mas nunca tem boas opções. Então que tal fazer campanhas na internet pra atrair novos políticos interessados em mudar alguma coisa? Pode ser, mas como? Na internet, fica de olho em algum político que faz coisas boas e manda um email pra ele. Pede pra várias pessoas mandarem um email pra ele. Provavelmente ele não vai aceitar, mas a iniciativa vai gerar algum resultado desconhecido. Temos que nos mexer, fazer algo diferente pra isso tudo mudar de uma forma pacífica. Afinal, não dá pra esperar resultados diferentes quando se continua adotando as mesmas estratégias (ou táticas).

Além disso, temos que ficar de olho em quem votamos (eu olho quem eu votei e você olha quem você votou). Pra isso sugiro que escolhas um jornal, blog que realmente informe, que seja o menos parcial possível, e acompanhes o que ele fala sobre esse político. Sugiro acompanhar o próprio meio de comunicação da câmara dos vereadores, deputados, senado, e as notícias no diário oficial do município. Já que não temos muito tempo pra procurar ativamente por notícias todos os dias, ler blogs ou sites certos simplifica muito nossa vida. E mais, temos que botar pressão nos políticos. Político que não cumpre o que prometeu, desde que seja do seu alcance, tem que ser falado.

Claro que essa é uma “conversa” hipotética. E se de fato ocorresse assim, apesar das boas dicas, não sairia do campo da alienação, uma vez que esse tipo de pedagogia não ensina, mas cospe as informações mastigadas, e assim, cuspidas, as informação não são sentidas e portanto são pouco absorvidas. Pra sentir uma ideia, e portanto incorporá-la ao próprio ser, melhor seria utilizar a pedagogida da pergunta (Paulo Freire <3). A pedagogia da pergunta não se trata do mediador de um determinado assunto (“educador”) fazer a pergunta. Sim, também, mas não só. Na verdade o foco é na pergunta de quem está aprendendo, do “educando”, e a curiosidade, expressa em forma de pergunta é quem deve guiar a aprendizagem de um indivíduo. Sem ela pouco consolidamos e o oprimido politica, economica e socialmente continua sendo oprimido durante o processo de ensino, por mais progressista que as palavras do “educador” sejam. Educador e educando estão entre aspas porque acredito que os papéis na educação não são binários, ao contrário, fluem entre essas extremidades o tempo todo, dependendo do que estamos conversando, com quem, onde, como estamos nesse dia, como o outro está, etc. Considero que somos todos mediadores do ensino e umas pessoas podem mediar mais do que outras sobre alguns determinados assuntos, mas não todos.

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