O terceiro mundo tem

Sim, nascemos individualistas. Primeiro acreditamos que só existe a gente, já que recém nascidos não entendem que os outros são os outros. Não delimitamos o eu dos outros, mas não no sentido da filosofia socialista progressista, onde, como diz John Lennon, (…) the world will live as one (o mundo viverá como uma unidade). Não, quando nascemos, raramentos nos diferenciamos dos outros e acreditamos, provavelmente inconscientemente, que o que nós vemos é o mesmo que os outros vêem, queremos e sentimos é o mesmo que os outros querem, vêem e sentem.

Embora aos 18 meses (um ano e meio) de idade já entendamos necessidades simples dos outros e os ajudemos, como abrir uma porta para um adulto que está carregando livros e não consegue abrir a porta sozinho (1), aos 5 anos muitos de nós ainda não inferimos estados mentais aos outros em situações simples mas mais complexas do que abrir portas (2). Isto é, ainda aos 5 anos muitos de nós não entendemos que o outro é o outro, e que o próprio umbigo não é o centro do mundo.

Com o passar do tempo vamos observando, percebendo, criando memórias, curiando, entendendo que aquilo que nos agrada não necessariamente agrada aos outros, e vice-versa. Assim, vamos nos diferenciando dos outros e inferindo cada vez mais e mais acuradamente estados mentais aos outros (também chamado de teoria da mente), embora haja diferença individual nesse inferir acuradamente (4 e 5).

Nesse processo todo de entender que os outros são os outros, alguns continuam enxergando o mundo através do próprio umbigo, enquanto que outros passam a considerar o ponto de vista de outras pessoas dentro do próprio umbigo. Assim, cada um de nós está posicionado dentro de um classificação contínua cujos extremos são individualistas e coletivistas.

O que pode estar por trás dessa diferenciação entre os indivíduos? Muitos fatores, certamente. Um deles é a nossa condição socioeconômica. A condição socioeconômica de um indivíduo reflete não apenas seu poder de compra e nível hierárquico dentro de uma sociedade, mas também seu contexto de segurança, saúde, moradia, alimentação, educação e lazer.

A nossa condição socioeconômica influencia no tipo de cognição que utilizaremos para resolver grande parte de nossos dilemas cotidianos. Duas possíveis classificações quanto à cognição são a holística, voltada para o contexto social, que envolve o ambiente social e a relação com os outros indivíduos; e a autocentrada, voltada para a própria liberdade e objetivos próprios.

Pessoas que nascem na pobreza ou são de baixa condição socioeconômica geralmente são menos individualistas e possuem a cognição holística (7). De forma parecida, comparando países de diferentes desigualdades (mensurada pelo índice de Gini), aqueles países que possuem menor desigualdade têm indivíduos mais individualistas (8 e 9).

Interessantemente, comparando crianças e adultos, embora as crianças de classes altas infiram mais rapidamente estados mentais aos outros (10 e 11), porque provavelmente cresceram em ambientes mais enriquecidos e estáveis (12), ao longo da idade a diferença entre as classes se inverte. São os adultos de classes baixas que passam a ter maior teoria da mente comparados aos adultos de classes altas (13), provavelmente porque precisam mais cotidianamente inferir estados mentais acurados, uma vez que sua sobrevivência depende de sua rede social.

Portanto, pessoas que nascem na pobreza tendem a ser mais coletivistas, pois um precisa do outro para suprimir suas necessidades, sejam elas básicas ou não. Isto é, em um ambiente ou contexto adverso, tendemos a nos unir (é o que o projeto de Fusão de Identidade está tentando evidenciar).

Essa falta de delimitação rígida entre as pessoas do “terceiro mundo”, com poros virtuais grandes e fluidos é o que permite a efervescencia cultural dos países mais pobres. As ideias se misturam e muito, por um lado porque precisamos das ideias e ações dos outros, e por outro lado, porque acontece muito erro de mira evolutivo que dá certo. “O terceiro mundo têm três mundos”, como diz Luisa e os Alquimistas, e todos entrelaçados e calientes. Os três mundos distintos: dos pobres, classe média e ricos.

Já as pessoas que nascem em países de menor desigualdade social ou em famílias de classe alta tendem a ser mais individualistas. Observam menos os outros, imitam menos os outros, afinal seu estilo de vida, qualquer que seja, já lhe confere sobrevivência. E tendemos a mudar de estratégia apenas quando não estamos indo na direçaão de alcançar nossos objetivos. Assim, aqueles que nascem em países com pouca desigualdade social, não importa muito qual sua personalidade, ambições e gostos, terão suas necessidades básicas supridas. E aqueles que não conseguem, são vistos como casos perdidos, porque tiveram praticamente as mesmas oportunidades que os outros.

A mesma lógica não pode ser aplicada para países com enorme diferença de classes como o Brasil. Aqueles que são pobres não o são porque são incapazes. O são na esmagadora maioria das vezes porque não tiveram boas oportunidades de sair da pobreza. É muito mais propício e fácil já começar a viver estando, no mínimo, na classe média. Mas quando se começa a vida na pobreza, a equação passa a ser outra completamente diferente. Mais elementos devem ser adicionados, uma vez que a luta pela sobrevivência é diária, se não for horária.

E para sair da pobreza, qual estratégia escolher, mesmo que inconscientemente? A dos ricos, claro, mesmo que inconscientemente, porque o dinheiro lhe dará casa, comida, saúde, segurança e lazer. Os ricos têm suas necessidades supridas. Só que entramos num dilema ou até paradoxo. Por um lado os pobres são instintivamente coletivistas e por outro, procuram imitar os ricos, os quais são individualistas. Além disso, será que ocorre a relação inversa onde pessoas individualistas se tornam mais ricas, enquanto que as coletivistas não?

Comparemos a Inglaterra com o Brasil. Aqui na Inglaterra as pessoas são simpáticas, sim. Mas as relações com eles e entre eles são individualmente coletivistas. São relações superficiais, com muita tagarelice e a fala do outro tem pouca importância além de gastar pragmaticamente o tempo fazendo alguma coisa, mostrando-se capaz de socializar. Não se pergunta com profundidade. Mas sim, se responde com profundidade, o máximo que eles conseguem, mas não para aprofundar uma relação, mas sim para alimentar o próprio ego. É uma constante competição. É como se o ambiente fosse mais competitivo e assim, as pessoas se comportam cada vez mais individualmente, já que não precisam umas das outras.

Mas se uma pessoa individualista, de um país com pouca desigualdade, vê uma criança passando fome, por exemplo, ela sente compaixão. Provavelmente porque em seu cotidiano as pessoas não precisam se ajudar, mas quando ela vê uma criança que não tem culpa por não ter comida, ela se sensibiliza e passa a ser pró-social, porque acredita que sua ação será importante para salvar a vida da criança. A pró-socialidade, portanto, passa a ser praticada, portanto, quando o outro realmente precisa. E em países com pequenas desigualdades, a maioria das pessoas não precisam, e aquelas que precisam podem receber suporte do governo, já que são poucas.

Ok, mas isso explica a nível de grupo, comparando indivíduos de países de diferentes desigualdades. Mas como explicar a diferença existente entre os indivíduos de um mesmo país? De forma parecida, na verdade. Aqueles que convivem em um meio mais pobre, onde uns precisam dos favores dos outros, serão mais pró-sociais com a rede, sem esperar reciprocidade direta, mas sim indireta. Já os de classe média e alta, se fazem algum favor, o direcionariam para alguém, e esperariam uma retribuição, isto é, praticariam muito mais frequentemente a reciprocidade direta. Mais uma hipótese para ser testada, mas como?

Corroborando com essa minha ideia, sabemos que indivíduos de países ricos e com menores taxas de desigualdade entre as classes, como a Alemanha e Noruega têm um menor senso de igualdade do que indivíduos de países mais pobres, como a Tanzânia e Uganda (Cappelen, Moene, Sørensen, & Tungodden, 2013). Da mesma forma, comparando dois países com diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico e industrial, os indivíduos dos EUA são mais egoístas do que os indivíduos do Kenya (Jakiela, 2015). Esses estudos, porém, não consideraram a variabilidade de CSE entre os indivíduos de cada país.

Isso provavelmente acontece porque em países com menor desigualdade a competição baseada na meritocracia é acentuada, uma vez que os indivíduos têm oportunidades parecidas. Já nos países com maior desigualdade, sabe-se que muitas vezes não se consegue suprir as necessidades básicas ou ascender porque as oportunidades não são igualitárias, e nesse caso a crença na meritocracia cai e o senso (ou pressão) para dividir igualmente ou agir de forma mais pró-social é vital no cotidiano.

Por que, talvez, países de menor desigualdade tenham menor senso de justiça?

É errado pensar na relação “pessoas com menor senso de justiça promovem um país com menor desigualdade”. Afinal, isso não faz o menor sentido. O mais plausível é pensar na relação contrária “Países e lugares com menor desigualdade promovem uma liberdade maior para o indivíduo exercer sua individualidade intrpinseca. Já os países ou comunidades com grande desigualdade precisam se adaptar, sendo coletivistas, para melhor sobreviver.

Isso me remete a pensar em outra teoria que tenho, que somos sociáveis apenas quando o ambiente nos leva a ser. A maioria das espécies fortes, com grande massa muscular, agilidade ou veneno são espécies não sociais, isto é, os indivíduos vivem sozinhos ou em pequenos grupos. As espécies mais indefesas para o ambiente físico ou que tem um ou vários bons predadores, precisam se unir. Isso explica o caso de muitas espécies. Tenho que checar uma por uma e fazer uma tabela gigante e ver se tem alguma lógica dizer isso. Mas sim, o homem, é um animal facilmente predável, pois não tem veneno, não sabe voar, não tem uma mordida perigosa, não carrega muito peso, não é veloz em uma fuga, não é muito habilidoso para escalar árvores frágeis. Os animais mais atrevidos são noturnos. Nós não, somos diurnos. E sim, andar em grupos de tamanho ideal, isto é, grande o suficinete para se protegerem e pequeno o suficiente para todos conhecerem uns aos outros, foi importante para sobrevivermos. Mas se não o fosse, continuaríamos individualistas, provavelmente.

Evolutivamente as primeiras espécies foram individualistas. A única forma de serem coletivistas seria através de algum tipo de comunicação entre elas, mesmo que seja química. Mas sim, somos constituídos por células que, pouco a pouco, foram se comunicando quimicamente, se juntando e formando relações simbióticas obrigatórias. Então por mais individualistas que sejamos, nosso corpo e praticamente tudo o que vemos é formado pela coletividade de átomos que se atraem, que possuem afinidade. Semelhante atrai semelhante, até quimicamente. Isso explicaria o porquê classificarmos as pessoas em ingroup e outgroup. E as características físicas são, a princípio, o único fator conscientemente observável, que remete ao lugar onde a pessoa nasceu e podemos classificar se é o mesmo lugar onde nós nascemos. Daí vem o preconceito entre etnias. Trata-se de um conjunto de características que permitem uma rápida classificação das pessoas. E nesse sentido, nossa consciência baseado na visão é mesmo uma tola iludida, já que muitas outras características deviam importar para classificarmos quem é semelhante e quem não é. E ainda assim, mesmo com os não semelhantes, deveríamos exercer nosso respeito.

Mas voltando à ideia de que somos indivíduos formados por bilhões de partes que se comunicaram e se juntaram ao longo do tempo e que, desde então, comandam todo o desenvolvimento do nosso corpo, nosso querido DNA. Somos nada mais do que o fenótipo do nosso DNA. Cada ser vivo, seja planta ou animal. E cada um de nós tem um DNA diferente (menos os gêmeos, claro). E nosso objetivo vital é passar nosso DNA para a próxima geração, e pra isso temos que nos manter vivos até a época reprodutiva, depois pecisamos misturar nosso DNA com o de outra(s) pessoa(s), e depois, cuidar de nosso(s) filhx até a idade que elx possa reproduzir-se. E aí o novo ciclo se inicia. É interessante essa obrigatoriedade por misturar o nosso DNA. Por que ainda existem espécies hermafroditas, se a mistura dos DNA confere uma variabilidade genética muito maior e portanto, maior probabilidade de adaptação? Quero pesquisar se alguma pesquisa já respondeu a essa pergunta. E se não, fazer um check list com espécies que se autofecundam e de fecundação cruzada.

Pesquisar..

  • Existem comunidades de baixa desigualdade social que são coletivistas?
  • Os países de maior desigualdade têm culturas mais fortes?
  • Por que a cultura dos EUA é tão forte? Eles entenderam que uma forma de fraquejar a economia dos outros para manter a sua invicta, após a grande crise de 1929, seria influenciar a forma do mundo pensar e agir, através de um forme investimento de difundir sua cultura como sendo correta. E muitas vezes a cultura que eles vendem não é a praticada dentro de casa.
  • Será que países grandes tendem a ser mais desiguais? Será que fragmentar o Brasil não seria uma boa solução para combater a corrupção? Ou seria só o caso de não competirmos com outros Estados e simplesmente voltarmos nossas atenções para o nosso Estado, fingindo ser um Estado-Nação?
  • Os países do terceiro mundo têm, necessariamente, maior desigualdade entre as classes?

 

1. Warneken, F., & Tomasello, M. (2006). Altruistic helping in human infants and young chimpanzees. science, 311(5765), 1301-1303.
2. Takagishi, H., Kameshima, S., Schug, J., Koizumi, M., & Yamagishi, T. (2010). Theory of mind enhances preference for fairness. Journal of experimental child psychology, 105(1), 130-137.
3. House, B. R., Silk, J. B., Henrich, J., Barrett, H. C., Scelza, B. A., Boyette, A. H., … & Laurence, S. (2013). Ontogeny of prosocial behavior across diverse societies. Proceedings of the National Academy of Sciences,110(36), 14586-14591.
4. Cavallini, E., Lecce, S., Bottiroli, S., Palladino, P., & Pagnin, A. (2013). Beyond false belief: Theory of mind in young, young-old, and old-old adults. The International Journal of Aging and Human Development, 76(3), 181-198.
5. Liddle, B., & Nettle, D. (2006). Higher-order theory of mind and social competence in school-age children. Journal of Cultural and Evolutionary Psychology, 4(3-4), 231-244.
6. Grossmann, I., & Varnum, M. E. (2010). Social class, culture, and cognition. Social Psychological and Personality Science. doi: 10.1177/1948550610377119.
7. Kraus, M. W., Piff, P. K., Mendoza-Denton, R., Rheinschmidt, M. L., & Keltner, D. (2012). Social class, solipsism, and contextualism: how the rich are different from the poor. Psychological review, 119(3), 546.
8. Jakiela, P. (2015). How fair shares compare: Experimental evidence from two cultures. Journal of Economic Behavior & Organization, 118, 40-54.
9. Cappelen, A. W., Moene, K. O., Sørensen, E. Ø., & Tungodden, B. (2013). Needs versus entitlements—an international fairness experiment. Journal of the European Economic Association, 11(3), 574-598.
10. Cutting, A. L., & Dunn, J. (1999). Theory of mind, emotion understanding, language, and family background: Individual differences and interrelations. Child development, 70(4), 853-865.
11. Meins, E., Fernyhough, C., Arnott, B., Leekam, S. R., & Rosnay, M. (2013). Mind‐Mindedness and Theory of Mind: Mediating Roles of Language and Perspectival Symbolic Play. Child Development, 84(5), 1777-1790.
12. Bennett, R. (2012). Why Urban Poor Donate A Study of Low-Income Charitable Giving in London. Nonprofit and Voluntary Sector Quarterly, 41(5), 870-891. doi: 10.1177/0899764011419518.
13. Kraus, M. W., Côté, S., & Keltner, D. (2010). Social class, contextualism, and empathic accuracy.Psychological Science. doi: 10.1177/0956797610387613.
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