Comparar-se, imitar, competir

Nossos resultados sugerem que as pessoas tendem a fazer comparações sociais habitualmente, mesmo quando tais critérios de avaliação estão desalinhados com a própria meta explícita (objetivo da própria pessoa) (Van Yperen & Leander, 2014).

O estudo citado invetigou se a informação social positiva ou negativa e a informação temporal, isto é, se uma pessoa ao longo do tempo se avalia mais positivamente ou negativamente, influenciam na auto-avaliação. O resultado é que as comparações sociais, mais do que a avaliação temporal, são o principal motivador da nossa auto avaliação. Isso acontece mesmo em pessoas  com objetivos de maestria, que são aquelas que procuram se comparar consigo mesmas e não com os outro.

Comparar-se com os outros, entretanto, não significa necessariamente competir com os outros. Nesse sentido, comparar-se aos outros pode ser um motivador para a imitação.

E não se pode confundir imitar com competir. Algumas pessoas são boas imitadoras, e muitas vezes nem se dão conta disso. Essas imitadoras podem ser confundidas com competidoras. Se alguém me imita não necessariamente ela objetiva competir comigo. Mas a nossa compreensão subjetiva sobre o outro estar competindo, ele estando ou não, é super importante.

Exemplificarei com uma história pessoal. Eu idolatrava meu irmão, e portanto queria imitá-lo em tudo.Não imitá-lo para obter benefícios em cima disso. Dos 3 aos 10 anos de idade, eu só queria ser igual a ele, não substituir nem diminuir ele. Mas ele não via isso com bons olhos e me ignorava a maior parte do tempo. Isto é, sua sensação subjetiva não era de imitação despretenciosa. Provavelmente ele juntou a minha imitação com sua sensação de ser injustiçado pelos nossos pais durante a infância, já que ele me julgava a preferida. Tipo assim.. ele era o gênio e eu simplesmente a imitadora. Mas quem era a adorada era eu (no julgamento dele).

Assim, além de sentir-se injustiçado, ele provavelmente criou um sentimento de competição comigo. Tentava fazer suas coisas escondidas de mim para ser reconhecido por seus atos autênticos, e não eu. Mas eu, como boa imitadora, sempre encontrava meu ídolo fazendo alguma coisa super interessante.E claro, pedia pra fazer também. Mas quem recebia os aplausos era eu (segundo ele), talvez porque eu fosse mais naturalmente ‘amostrada’.

A soma desse sentimento durante vários anos de imaturidade comum nas crianças foi acreditar que eu estava competindo com ele, quando na verdade estava imitando-o por julgá-lo perfeito. Como ele não obteve esse retorno verbal de mim, quando nova, ele poderia sim julgar da forma como quisesse. E assim consolidou o sentimento de eu estar competindo com ele e portanto, ele competia comigo. Afinal, em ambientes competitivos, somos mais competitivos e menos pró-sociais (Pierce, Kilduff, Galinsky, & Sivanathan, 2013).

Então sugiro perceber profundamente, antes de competir com alguém, se esse alguém está realmente competindo com você ou está simplesmente te imitando. Esse conselho serve muito pra mim. Porque algo parecido aconteceu comigo recentemente, estando eu no papel do meu irmão.

Voltando pro caso do meu irmão e eu, provavelmente não tivemos um bom desenvolvimento da linguagem na infância, porque a comunicação com nossos pais era mais corporal e visceral do que por linguagem. Então acredito que demoramos um bocado pra desenvolver a Teoria da Mente (ToM), já que seu desenvolvimento está associado com aquisição de linguagem e ambientes socialmente enriquecidos (Garfield, Peterson, & Perry, 2001). E sem ToM, julgar corretamente se os outros estão competindo, imitando despretenciosamente ou cooperando, depende unicamente da aleatoriedade.

 (Aqui posto recortes de artigos científicos. Intento fazer uma sopa de ideias, como um brain storm crônico pra ver se de repente essa sopa gera boas assembléias neurais).
Garfield, J. L., Peterson, C. C., & Perry, T. (2001). Social cognition, language acquisition and the development of the theory of mind. Mind & Language, 16(5), 494-541.
Pierce, J. R., Kilduff, G. J., Galinsky, A. D., & Sivanathan, N. (2013). From Glue to Gasoline How Competition Turns Perspective Takers Unethical. Psychological science, 24(10), 1986-1994.
Van Yperen, N. W., & Leander, N. P. (2014). The overpowering effect of social comparison information on the misalignment between mastery-based goals and self-evaluation criteria. Personality and Social Psychology Bulletin, 40(5), 676-688.
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