Situações

Apegar-se exageradamente…

Estar em um relacionamento romântico com alguém pode promover um sentimento inconsciente de que se ama mais a todxs, o mundo e is amigxs (e até conscientemente). Isso não é incomum. Poderia citar vários exemplos. Mas essa é uma característica pessoal, e até então não torna ninguém uma pessoa ruim. Mas o mundo ser mais feliz não torna o sujeito amado mais dependente do amador? Toda essa dependência deposita muita carga em cima de uma única pessoa, um ser humano comum – embora todos tenhamos nossas essenciais particularidades, a maioria de nossas características são comuns, e assim, existem muitas pessoas por aí que pensam parecido comigo ou com você. E ser dependente demais de uma outra pessoa, com total apego a ela e desapego a si mesmo e ao mundo certamente não é um caminho fácil a seguir. Provavelmente gera tristeza e frustração. E muito esforço pra ser perfeitx para x outrx, sem considerar que x outrx se envolveu com você porque eras perfeitx para você mesmx. Então, vejo um relacionamento desses fadado ao peso, com um dos lados bem insatisfeito, ou ainda ao rompimento rápido.

Esse apego exagerado por alguém poderepresentar uma estratégia da pessoa se apegar fortemente a algo. Isso poderia acarretar num apego exagerado a uma ideia, o que pode levar à pessoa a um desenvolvimento tímido, mas crescente, de um tipo de arrogância e orgulho, no intuito de impor essa ideia ao mundo (inclusive ao ser amado) para evitar as frustrações. Veste-se a máscara daquele que tudo faz pelo outro, e, assim, viria junto uma roupa especial, a de achar que sempre se tem a razão e que críticas são sempre mal vindas.

Por outro lado, leveza num relacionamento amoroso pode indicar também leveza em outros relacionamentos e no posicionamento com o mundo. Os diálogos passariam de embebidos com orgulhos, para embebidos em liberdade, passando a ser fluidos, e não travados. E se tens um programa onde sempre doarás tudo pelo outro, isso não é fluido, porque simplesmente não há uma conversa entre você e o outro.

Não somos um modelo de chave-fechadura, mas sim de encaixe-induzido, onde subtrato e enzima modulam-se um ao outro para se encaixarem perfeitamente. Essa fluidez é o que torna as relações fortes e consistentes. Como no modelo biológico mesmo. As pessoas mais fortes, portanto, e na minha concepção, mais sábias, são aquelas que modulam os outros e se modulam, fluindo em cada interação com o mundo, seja com a natureza, com as pessoas, com os outros animais, consigo mesmo até. Aprendendo, ensinando, estando, interagindo, criando, somando, adaptando-se.

Assim, os mais fortes não são os mais arrogantes e orgulhosos. Estes podem impor respeito por curto período. Mas não a longo prazo. Ter jogo de cintura sim permitiria um ser respeitado (e respeitar) a longo prazo, praticando a humildade sem oprimir-se e o diálogo sem oprimir. E, assim, acredito que a sociedade do futuro é aquela que prezará pelo bem estar social, construída por pessoas fortes, que enfrentaram as desigualdades sociais e econômicas, os interesses individualistas e os falsos moralismos. Ela praticará a união, a cooperação e a volarização da coletividade. E pra chegar nesse estágio o apego exagerado por alguém, por uma ideia, por um comportamento ou por bens materiais não terão vez.

Isso não significa que devemos ser totalmente desapegados aos outros ou as ideias. Não. A palavra exagerado é fundamental. O mediano entre o apego e o desapego é o ideial, assim como é o mediano entre o oprimido e o opressor. O caminho do equilíbrio não é fácil, pois muitas vezes começamos a nos comportar de uma forma sem nos darmos conta que aquilo é exagerado, e caímos no vício (ou na rotina dele) – inspirada em Maria Alice. Mas sim, é possível. Com muita práxis e auto-conhecimento.

E, sim, a ciência é super bem vinda. Assim como as tecnologias e as fábricas. Mas é justamente o exagero que leva à exploração dos povos, as desigualdades sociais e econômicas, a alienação, a degradação do ser humano e do meio ambiente, a perversidade do pensamento e comportamento humano, etc. Se queremos sobreviver a longo prazo, temos que continuar a luta para melhorar. Viemos nos desenvolvendo do irracional ao racional (sem entrar no mérito do ser humano ser ou não ser a única espécie que raciocina, certo?!), passando por épocas bárbaras, alcançando muita comunicação e um cérebro que pratica auto engano frequentemente. Isso tudo permite-nos conhecermos cada vez mais quem somos. E sabendo disso, podemos direcionar melhor o para onde iremos quanto espécie.

Sobre diálogo versus tagarelice

Acreditar que se está no topo hierárquico simplesmente pelo fato de falar mais e se impor mais não é uma atitude, de longe, progressista. Defender postos hierárquicos já não o é, ainda mais baseado na tagarelice. Segundo Paulo Freire, não confundamos diálogo com tagarelice. É fácil falar sem parar. Difícil é dialogar. Ouvir, interagir com a conversa, falar, construir uma ideia juntos (o que as esquerdas precisam fazer ao invés de discutir pra decidir quem tem a razão). Achar que o tagarelismo é sinônimo de topo hierárquico beira à falta de pensamento profundo. Porque uma coisa é a quantidade da fala, outra é a qualidade. Um bom líder, se é isso que se entende por topo hierárquico em uma visão progressista, não é aquele que fala muito, mas aquele que fala bem, que sabe dialogar, construir ideias e interagir horizontalmente com todos, inclusive sem considerar-se como estando num topo representativo.

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